Introdução

No quinto centenário de nascimento de Santo Antônio Maria Zaccaria (1502-1539), fundador dos Barnabitas, das Angélicas e dos Leigos de São Paulo, publica-se esta pequena biografia de um homem de Deus, ardente de zelo por Cristo e pelas almas, que dedicou sua intensa existência à reforma da sociedade paganizante de seu tempo. Viveu na primeira metade do século XVI e morreu com apenas 36 anos.

Lamentavelmente, a personalidade e a estatura moral de S. Antônio Maria Zaccaria ainda são pouco conhecidas. Há alguns anos, vem sendo promovida uma reconstrução fidedigna de seus dias e de suas obras.

Pertencendo àquela linha de santos – basta nomear seus contemporâneos Jerônimo Emiliani (+ 1537), Caetano de Thiene (+ 1547) e Inácio de Loyola (+ 1556) – que, durante o século XVI o Espírito Santo despertou, na Igreja, para a renovação da vida cristã decaída, tanto em seu vértice como em seus membros, Antônio Maria Zaccaria é, com razão, considerado um grande precursor da Reforma Católica, que iria se concretizar no Concílio de Trento (1545-1563), tendo São Carlos Borromeu (+ 1584) como seu principal condutor.

Embora tenha vivido em uma época distante, Antônio Maria possui traços de modernidade e atualidade, pois a sua mensagem baseia-se no perene radicalismo do Evangelho, estando repleta da «sobreeminente ciência de Jesus Cristo» (como reza a Liturgia), animada e guiada pela paulina «loucura da cruz». O Santo chega a exortar os seus discípulos, com uma expressão que se tornou famosa: «corramos como loucos, não só a Deus, mas também em direção ao próximo».

Inicialmente, como jovem leigo e, depois, como sacerdote e fundador, Antônio Maria surge, em sua época, «bastante semelhante à nossa quanto às inquietações» – assim escreveu, de forma notável, Paulo VI, em 1972 – «como uma grande figura de restaurador da vida espiritual e apostólica, no espírito de São Paulo».

A sua foi uma luta contínua contra a «tibieza» e a mediocridade, um apelo incessante à perfeição da caridade, uma voz que, em nossos dias, parece ecoar no magistério do Concílio Vaticano II e na Exortação de João Paulo II, no final do Grande Jubileu do ano 2000, ao chamar todos os cristãos, jovens e adultos, para a santidade.

Além da comemoração histórica, parece-nos que Antônio Maria Zaccaria mereça ser redescoberto, pelo esplêndido testemunho de sua santidade: com o «fogo» de seu amor apostólico, é capaz, ainda hoje, de «incendiar» o coração e a cidade dos homens.

Para melhor compreensão de sua vida e obra, bem como para entender os escritos do Santo e a tradição hagiográfica dos autores, Barnabitas e Angélicas, será destacado, ainda que em linhas gerais, o quadro social e religioso das cidades de Cremona e Milão, na primeira metade do século XVI. Em especial, faz-se necessário reconstruir, brevemente, os eventos trágicos, que agitaram estas cidades e a crise religiosa que atravessaram, na passagem para a era moderna. Tais circunstâncias, de fato, incidiram, de forma determinante, sobre a formação moral do jovem Antônio Maria Zaccaria, motivando a sua ação apostólica.

I – O ambiente histórico-religioso

I – O ambiente histórico-religioso

A queda de Constantinopla (a «segunda Roma»), frente aos exércitos turcos, em 23 de maio de 1453, teve imediata repercussão na República de Veneza. Esta teve de eliminar, progressivamente, as muitas escalas comerciais com o Oriente, de tal modo que, em 1496, todos os portos otomanos estariam fechados para ela. Em razão destes acontecimentos, a Sereníssima1 tendeu a se expandir em terra firme, estabelecendo um pronto entendimento com os diversos governos da Itália, estipulando a paz de Lodi (1454), com que se sancionou o princípio do equilíbrio entre os Estados italianos.

A segunda metade do século XV encontrou as famílias Sforza em Milão, os Médici em Florença, os Aragoneses em Nápoles e os papas preocupados com a reconstrução do Vaticano. Assim dividida, a nação prestou-se a virar terreno de disputa entre os soberanos dos países além dos Alpes. Carlos VIII, rei da França, reivindicou direitos de família sobre Nápoles e entrou na Itália, em 1494. Seu sucessor, Luís XII, atribuiu-se nada mais, nada menos que direitos reais sobre Milão.

Mas Veneza, também, interessou-se pelo ducado de Milão, seja para adquirir ali algumas terras, seja para limitar seu poder. De fato, ofereceu soldados e dinheiro à França, em troca da cessão de Cremona e outras regiões. As operações bélicas que se seguiram tiveram êxito e o ducado de Milão submeteu-se à França. Cremona sofreu a influência política e comercial de Veneza: corria o outono de 1499.

Cremona na órbita de Veneza

Com estes acontecimentos, tiveram fim os danos, represálias, saques e destruições, registrados na cidade de Cremona, em conseqüência das brigas entre Milão e Veneza; terminaram, também, as incursões do exército francês, de que se falou antes. Na passagem para a Sereníssima, os cremonenses vislumbraram uma garantia de paz. De fato, à chegada do exército vêneto, a cidade rendeu-se, sem resistências. Isto é confirmado, inclusive, por testemunhas da época, referindo que os venezianos, encontrados pelo povo, pelo clero e pelos nobres, dirigiram-se, em ordem, à catedral, precedidos pelo glorioso estandarte de São Marcos. Este último, logo depois, foi visto tremular no alto da Grande Torre de Cremona. A ausência de desordens determinou a presença de um único grupo de soldados venezianos, em defesa de toda a cidade. A sede do exército foi o Castelo de Santa Cruz, junto à Porta de São Lucas, o segundo, na Itália, em tamanho e fortificações, depois do de Milão.

A nova ordem teve também êxito litúrgico: o arcebispo Alexandre Oldovino celebrou missa solene na catedral, na presença dos provedores venezianos. Na própria catedral, jurou-se fidelidade aos novos senhores, enquanto doze cremonenses foram escolhidos como «oradores de obediência», a serem enviados a Veneza. Eram, respectivamente, os representantes dos cavalheiros, dos doutores, dos cidadãos e dos mercadores (dentre estes últimos, no entanto, não figuravam os da família Zaccaria).

Situação social e econômica

Cremona, «terra fértil e belíssima», que contava cerca de 60.000 habitantes, era uma das cidades de maior prestígio da região da Lombardia, na Itália. Nela floresciam as ciências, as letras, as artes, inclusive, a incipiente indústria tipográfica: escrevendo a um leigo cremonense, Antônio Maria garantiu, de Milão, o fornecimento de uma «máquina da boa e útil imprensa».

Também florescentes eram a agricultura e o artesanato. Calcula-se que as famílias dedicadas à tecelagem da lã, do algodão, da seda e do linho fossem cerca de treze mil. E a história atesta-nos que, dentre estas figurava, também, a nobre família dos marqueses Zaccaria.

Nesta época, era bastante difundido o interesse pelo ocultismo e a astrologia. Esta última, com as presumidas influências ou influxos dos astros, era cultivada, inclusive, pelos médicos, para diagnosticar e curar doenças e individualizar predisposições doentias. Foi um hábito tão enraizado que, ainda hoje, não se encontrou uma palavra melhor do que influenza para expressar a patologia que ataca as vias respiratórias, nos meses frios. A condenação da astrologia, como sinal de uma superstição que se alastrava, apareceria nos Sermões do Santo, que denunciou a prática de «artes mágicas» e estigmatizou a pretensão de querer «saber as coisas futuras, como os astrólogos». Antônio Maria falou sobre isso, também, para as freiras. Dentre as religiosas que o escutavam, do mosteiro das Irmãs Agostinianas da Anunciação, estavam algumas de suas tias, e também duas irmãs de Ascânio Maria Sforza, bispo titular da cidade, que, – dizia-se –, mandara confeccionar para elas, um maço de cartas de baralho, pintadas por Antônio Cicognara.

Decadência religiosa

A par da grande exuberância econômica e cultural, destacava-se a crise religiosa e espiritual. Sob este ângulo, Cremona não fazia exceção à generalizada decadência da prática cristã. Disto são viva documentação as muitas censuras de Antônio Maria , em seus Sermões.

Qual era, pois, a situação religiosa da cidade de Cremona? O clima de instabilidade, de incertezas, de fraqueza de governo, ligado às contínuas guerras, tornara-se ainda mais precário, pela decadência do clero e pela inércia de grande parte da hierarquia eclesiástica. Não causa espanto, assim, o aumento do número de paróquias, em que não se conservava o Santíssimo Sacramento. Dentre os sacerdotes, não faltavam os que usavam armas, caçavam, e tinham conduta inteiramente contrária à dignidade de sua vocação.

Imperava, por outro lado, uma forte ignorância religiosa: o clero, em sua maioria, não sabia ler os livros litúrgicos, atrapalhava-se com as fórmulas sacramentais e cumpria, com descuido, as cerimônias da Missa; as igrejas transformaram-se em casebres, com altares esquálidos e capelas desprovidas de alfaias; a Eucaristia era guardada nas sacristias ou em alcovas indecorosas, sem lâmpadas; a pregação da Palavra de Deus era inteiramente descuidada. Uma das razões de tal estado miserável foi – triste costume da época – o fato de, por três quartos de século (de 1476 a 1550), os bispos não residirem na cidade, confiando seu governo a representantes.

Como se não bastasse, naqueles anos, surgiu, ainda, o perigo da heresia protestante, favorecida pela proximidade da República de Veneza, particularmente exposta às influências dos países além dos Alpes. Em 1526, na cidade, irromperam discussões sobre as verdades cristãs . Ouviram-se opiniões radicais, freqüentemente negando até dogmas fundamentais da fé. Nas fileiras religiosas, surgiram apóstatas. O prior dos dominicanos, frei Bartolomeu Maturi,2 foi um deles. Em 1537 e 1539, os Inquisidores descobriram padres e freis, que pregavam «mil heresias» e, por volta da metade do século, Cremona foi considerada «o maior centro do luteranismo lombardo».

Calamidades naturais

A dominação vêneta teve início ao mesmo tempo em que surgiram diversas calamidades, como a enchente do rio Pó, em fevereiro de 1503,3 epidemias recorrentes, que causaram enormes danos e muitas vítimas, e a carestia de 1505, que trouxe a fome para todos os habitantes da cidade. Isto contribuiu para deteriorar as relações com os governantes vênetos. O raio, que caiu sobre a Grande Torre de Cremona e destruiu o Leão Dourado, símbolo da Sereníssima, assim como um horrível terremoto, acompanhado de furiosa tempestade, foram considerados, pelo povo, como sinais premonitórios da iminente queda política de Veneza.

A Liga de Cambrai, de 1508, entre a França de Luís XII e o Império italiano com seus satélites, marcou o fim da dominação vêneta sobre Cremona. Os venezianos foram derrotados, na batalha de Agnadello, em 14 de maio de 1509, tendo que deixar a cidade. No entanto, somente em junho, cederam o Castelo de Santa Cruz. No dia 24 do mesmo mês, Luís XII entrou, solenemente, em Cremona. Ao seu encontro foi um grupo de fidalgos. Em homenagem ao novo soberano, saudado como «lilium flos et pacis pater»4, vestiram-se com uma roupa de seda azul-turquesa, bordada com lírios de ouro. Uma inscrição na catedral da cidade reconhecia a Luís XII o mérito de ter expulsado os venezianos, com uma «guerra justa».

Apesar do regozijo inicial, a alegria durou pouco. De 1509 a 1521, seguiu-se uma era de desventuras. Além de uma nova epidemia de peste (1511), Cremona teve de suportar violências e saques de exércitos inimigos e mercenários, que sufocaram a população indefesa. «A província de Cremona foi tão saqueada, torturada e destruída por diferentes exércitos, que aos habitantes da cidade e do campo, não restava mais do que um sopro de vida».

Carlos V entra em Milão

Em 1521, Carlos V, rei da Espanha, entra em Milão, após sua vitória sobre as milícias francesas. Era o dia 25 de novembro, festa de S. Catarina de Alexandria: a população recorre a esta santa, a fim de afastar a iminente ameaça das tropas derrotadas e em retirada, que prometiam derrubar a Grande Torre. As orações foram atendidas e a cidade foi salva. Daquele dia em diante, o povo dedicou «suprema reverência e devoção» para com a célebre mártir. A este episódio, que teve profunda repercussão na província de Cremona, talvez se possa associar o culto que Antônio Maria Zaccaria e seus primeiros discípulos dedicaram a Santa Catarina, sob cuja proteção, inicialmente, dedicaram a sede da nascente Congregação dos Clérigos Regulares de São Paulo.5

Finalmente, em 4 de julho de 1522, dia da festa do dominicano S. Antonino Pierozzi,6 os franceses abandonaram Cremona. Naquela ocasião, o Conselho Geral da cidade determinou que, todo ano, esta data fosse celebrada, com a oferta de «dois círios grandes de cera branca» à igreja a ele dedicada. Acrescente-se que S. Antonino foi homenageado também pelo jovem Antônio Maria. De fato, quando se preparava para o sacerdócio, sob a orientação dos dominicanos, ele estudou as obras teológico-pastorais de Antonino Pierozzi, como a Summa moralis e o chamado Confessional. Estas mesmas obras estariam entre as leituras obrigatórias dos primeiros Barnabitas.

Bispos titulares mas não residentes

Assim traçado, em breves linhas, o pano de fundo político, econômico e social da época em que viveu o Santo e antes de prosseguir, falando sobre seus anos de juventude, convém retomar a situação da diocese de Cremona, naquele período. Tal diocese foi confiada por Inocêncio VIII a Dom Ascânio Maria Sforza, filho do duque Francisco I e de Bianca Maria Visconti, em 1486. Dom Ascânio, todavia, viveu em Roma, jamais tendo se estabelecido em Cremona. Foi notório o papel preponderante e simoníaco, desempenhado por ele, para conseguir a eleição a pontífice do cardeal Rodrigo Bórgia, que, em 1492, tornou-se o papa Alexandre VI. Dom Ascânio morreu subitamente, em 1505, e foi sepultado na igreja de S. Maria do Povo, onde o papa Júlio II, eleito dois anos antes, mandou erguer o célebre monumento fúnebre, construído por André Sansovino.

De 1505 a 1507, a diocese de Cremona foi dirigida pelo cardeal Galeotto Franciotti de Rovere, sobrinho do papa Júlio II. Ele também não residiu na cidade.

Sucedeu-o, de 1507 a 1523, o cardeal Jerônimo Trevisan. Em seu governo, aconteceram manifestações públicas de fé religiosa, desenvolveu-se a irmandade leiga da Santa Cruz, retomaram-se as visitas às paróquias, espalhando-se, mesmo, o boato de duas aparições de Nossa Senhora, em 1518, sinal de um renovado fervor religioso.

Apesar de tudo isso, os anos do episcopado de Jerônimo Trevisan – assim referem os historiadores – foram um período tormentoso para Cremona. As vicissitudes político-militares, que envolveram a cidade e seu território no frágil equilíbrio das alianças, trouxeram uma sucessão de batalhas, devastações, saques e destruições, por obra dos exércitos contrapostos, e prontamente eram exigidos resgates e tributos, impostos pelo vencedor de ocasião, italiano ou estrangeiro. Acrescentem-se a carestia, a fome e as pestes, que, a partir de 1511, devastaram o território cremonense. Em 1522, houve até um interdito papal sobre a cidade.

Com a morte do cardeal Jerônimo Trevisan, dirigiu a diocese, por pouco tempo (1523-1524), o cardeal florentino Pedro Accolti, que, logo, cedeu-a ao sobrinho, cardeal Bento, definido por Ariosto como «glória e esplendor do Consistório santo», certamente não por virtudes sacerdotais. Foi durante seu governo – sempre gerido por pessoas representantes –, que Antônio Maria foi ordenado sacerdote.

O cardeal Sfondrati e as Congregações zaccarianas

Para completar o quadro, acrescentaremos que, dez anos depois da morte de Antônio Maria, uma vez falecido Bento Accolti (1549), o Conselho Geral de Cremona pediu ao imperador Carlos V, um bispo residente – o que não acontecia desde 1476 – obtendo-o, com a nomeação do cardeal Francisco Sfondrati. Durante seu episcopado (1549-1550), um aspecto da história da cidade entrelaça-se com a das Congregações zaccarianas. Vejamos como.

Antes de ingressar na carreira eclesiástica, Francisco Sfondrati foi, na vida civil, um célebre advogado. Casou-se e teve quatro filhas, todas, mais tarde, irmãs Angélicas (o ramo feminino, fundado por Antônio Maria), e dois filhos. Uma vez viúvo, abraçado o estado clerical e nomeado cardeal, Francisco, no breve governo da diocese, deu início a uma obra de reforma, que seria retomada por seus sucessores, em especial, pelo filho Nicolau. Foi este que, sucedendo-o nas responsabilidades da diocese, de 1560 a 1590 – ano em que se tornou papa, com o nome de Gregório XIV –, acolheu os Barnabitas em Cremona, em 1570, enquanto as Angélicas já se haviam estabelecido ali, em 1549. Foi feita por ele a carta dedicatória (datada de 25 de outubro de 1575) do livro Prática Espiritual de uma Serva de Deus, onde declarava ter recebido tal obra de um «padre religioso e devoto», com quem viajara a Roma, por ocasião do Ano Santo de 1575. Tratava-se do padre João Pedro Besozzi (+ 1584), recebido na Congregação por S. Antônio Maria Zaccaria e primeiro sucessor dos três padres Fundadores.

Notas:

1. Assim, também, é denominada a República de Veneza. (Nota do tradutor)

2. Frei Bartolomeu Maturi, em 1528, foi para a Suíça, para se juntar aos reformadores.

3. Antônio Maria tinha, apenas, dois meses e, dali a pouco, tornar-se-ia órfão de pai.

4. ‘Flor de lírio e pai da paz’.

5. Em seguida, chamaram-se Barnabitas, por causa da igreja de S. Barnabé, em Milão, onde se fixaram definitivamente.

6. O arcebispo florentino, então beato, e, depois, tornado santo.

II – Juventude de Antônio Maria

II – Juventude de Antônio Maria

Os primeiros anos em Cremona

No ambiente antes delineado, Antônio Maria Zaccaria nasceu e transcorreu sua juventude. Na falta de certidão de nascimento, tudo faz crer que tenha vindo à luz, com sete meses, na primeira quinzena de dezembro de 1502, filho de Lázaro e Antônia (que todos chamavam de Antonieta) Pescaroli, que haviam se casado em 2 de fevereiro do ano anterior. Logo ficou órfão, tendo perdido o pai nos primeiros meses do ano de 1503.

Antônio Maria viveu na casa da família, juntamente com a mãe e alguns outros parentes, que administravam diversas propriedades rurais e uma loja de tecidos de linho e lã, situada na praça da catedral, loja que, para dizer a verdade, estava cada vez mais decadente. Tais bens seriam vendidos, nos anos de 1524 a 1532.

A amarga realidade cotidiana, de que já se falou, teria muito maior influência sobre o ânimo do adolescente Antônio Maria Zaccaria do que o clima alegre e a vida artística do Renascimento, ou, ainda, os acontecimentos religiosos – importantes, mas distantes –, como a celebração do V Concílio Ecumênico de Latrão (1512-1517), os pontificados de um Júlio II (1503-1513) e de um Leão X (1513-1521), ou a iminente explosão da revolta protestante. Sabemos, aliás, com certeza, que os horrores da guerra e da decadência econômica feriram sua sensibilidade: é disto testemunha o gesto com o qual, em um dia de inverno, voltando da escola, deu seu casaco de seda a um pobre maltrapilho.

Órfão de pai, em meio a lutas e misérias, Antônio Maria cresceu, marcado por uma maturidade precoce, demonstrando toda a sua piedade. Nisto, deve-se ver uma plena correspondência aos cuidados da sua mãe, que o educou no amor a Deus e ao próximo.

Seguiu, regularmente, o curso dos estudos na cidade, onde o ensino elementar era ministrado por professores particulares, às expensas do Município ou das Corporações. Cremona orgulhava-se de ter, há séculos, uma tradição cultural e, no século XVI, uma escola florescente: aqui, as matérias principais eram língua e literatura clássica, ciências naturais e direito; um bom aprendizado e uma escola adequada à carreira escolar do nosso Amigo, orientada para o estudo da filosofia e da medicina.

Culturalmente preparado, aos 18 anos, Antônio Maria deixou Cremona, transferindo-se para Pádua, a fim de freqüentar a sua prestigiosa universidade. Antes de partir, em outubro de 1520, redigiu dois testamentos: como veremos em seguida, foi um ato de prudência, naquelas circunstâncias de guerras e calamidades naturais, um gesto de desapego evangélico das riquezas, um sinal de amor e reconhecimento filial.

Estudante em Pádua

Completados, portanto, os primeiros estudos na cidade de Cremona (outras fontes falam, também, de Pavia), o jovem Antônio Maria estabeleceu-se em Pádua, universidade florescente de uns mil estudantes, provenientes de toda região da Itália e de outros países da Europa. Estes alunos podiam inscrever-se no «colégio dos juristas», reservado, em geral, aos nobres, ou no «colégio dos filósofos e médicos», aberto a todo tipo de aluno.

A universidade de Pádua era, então, o centro mais importante do aristotelismo na Itália. Nos círculos dos doutores, discutia-se vivamente sobre os problemas religiosos mais graves, como a imortalidade da alma e a eternidade; fervia o debate sobre as teorias filosóficas averroistas; difundiam-se as idéias radicais do anabaptismo, que negavam a validade do batismo de crianças. Por todos estes motivos, a cidade de Pádua será considerada, depois, como um «receptáculo» da heresia luterana.

Antônio Maria freqüentou os estudos de medicina, tendo conseguido o doutorado mas, afora isso, não se conhecem outros particulares sobre os seus anos universitários. O curso podia durar quatro anos ou mais e os exames escolares tinham como base os Aforismos de Hipócrates de Cos, as Medicinas de Galeno e as obras de Avicena e de Averroé. Para ser admitido ao exame de licenciatura era preciso, primeiro, pedir a «graça» ao colégio dos professores, demonstrando ter freqüentado as aulas e ter participado das discussões públicas previstas nos estatutos. Além disso, era necessário pagar uma taxa bastante alta, mas podia-se obter a isenção total ou parcial desta taxa, alegando a distância de casa, as difíceis condições econômicas provocadas pela guerra ou pelas enchentes, um certificado de boa conduta e bom aproveitamento, ou apresentando uma carta de recomendação. Somente depois destas práticas, o estudante podia enfrentar o exame «tentativo» e dissertar sobre as teses sorteadas doze horas antes: tratava-se, normalmente, de um comentário a algum aforismo de Hipócrates, da descrição de uma doença e de uma discussão com os doutores da faculdade. Se as notas fossem positivas, o laureando enfrentava, finalmente, o exame propriamente dito, coroado, em caso de sucesso, pela outorga das insígnias doutorais.

Do período universitário restou um manuscrito do Santo, contendo anotações de filosofia, recolhidos em um caderno em ordem alfabética. Nas páginas então deixadas em branco, Antônio Maria, mais tarde, escreverá alguns dos seus Sermões, ou seja, catequeses, em sua maioria, sobre os Dez Mandamentos. O seu modo de escrever juvenil revela uma mente clara e sintética, levada a redigir sentenças incisivas, uma ordem lógica e uma inclinação à precisão dos conceitos.

Este jovem que, com razão, imaginamos esquivo e reservado, queira ou não, teve de se misturar no ambiente briguento e devasso dos «pobres estudantes». Só o que consta deste tempo é a significativa amizade com Serafim Aceti de Fermo (+ 1540), que se tornará cônego lateranense e pregador famoso, autor de obras ascéticas, que seriam consultadas por S. Filipe Néri e S. Teresa d’Ávila.

Retorno à terra natal

Retornando à cidade de Cremona, depois dos estudos universitários, Antônio Maria teve que presenciar repetidos contágios da peste que tinha rebentado uma primeira vez no verão de 1524 e que apareceu novamente em 1528, juntamente com um violento terremoto. Naqueles momentos perigosos, Antônio Maria exerceu uma obra de prodigiosa assistência, tanto que os seus concidadãos o honraram com os títulos de «pai da pátria» e «anjo em carne e osso».

Naturalmente, agia também como médico. Isto é documentado, por exemplo, pelo fato de, em abril de 1526, figurar como «artium et medicinae scholaris», entre os jovens laureados, que estagiavam à espera de serem inscritos no livro da ordem dos médicos. Naquele período, também, revelou-se profícua sua habilidade para os negócios. Isto é demonstrado pelo fato, atestado por alguns documentos de cartório, de ter exercido funções de executor testamentário. Mas, nem a medicina, nem o tratamento de pendências patrimoniais, eram a vocação do Santo. Ele mostrou-se interessado nas problemáticas religiosas, tanto que não tardou em entrar em contato com os padres Dominicanos, sobretudo com um certo frei Marcelo, cujo nome completo é desconhecido, mas que é tido pelos biógrafos de Antônio Maria como seu primeiro diretor espiritual.

Dedicou-se, pois, ao estudo da Sagrada Escritura e da Teologia, especialmente das cartas de São Paulo e da Suma de Santo Tomás, como demonstram a estrutura e o conteúdo dos Sermões, acima mencionados. Junto ao estudo, vinha também a pregação: de fato, a tradição é unânime em assinalar uma intensa atividade catequética no jovem Antônio Maria, mesmo antes de se tornar sacerdote.

A opção sacerdotal

Não sabemos quando, e de que forma, resolveu abraçar a vida sacerdotal; o fato é que, como resulta de recentes e acuradas pesquisas, recebeu a ordem do diaconato em 19 de dezembro de 1528, sábado das Têmporas de outono. As quatro têmporas, correspondentes às quatro estações do ano, constituíam momentos de pedido de graças celestes, sobretudo sobre o trabalho dos campos, através de jejuns e orações, chamadas Rogações.

A seguir, em 20 de fevereiro de 1529, Antônio Maria foi consagrado sacerdote, pelas mãos do Bispo D. Lucas de Seriate, que o ordenou na Capela de São José, construída junto à parede norte da Catedral de sua cidade.

A primeira missa foi celebrada, com sugestiva humildade, na igrejinha de São Vital, contígua à casa em que nasceu (uma e outra ainda hoje existentes, nas proximidades da rua Beltrami). Estavam presentes a sua mãe e um grupo de amigos mais chegados e – coisa surpreendente, atestada pelos historiadores mais rigorosos – fez-se visível um coro de anjos adoradores. Daquele dia em diante, o novo sacerdote sempre assinará «Antônio Maria, Padre».

No cenário da vida sacerdotal, Antônio Maria apresenta-se com duas características: a mais absoluta disponibilidade e um grande ardor apostólico.

A ordenação ad titulum patrimonii – patrimônio que confiara à mãe – excluía-o do sistema dos benefícios eclesiásticos, conferindo-lhe maior liberdade de movimento, na medida em que não estava incardinado em nenhuma diocese. O fato de estar desvinculado da organização diocesana explica por que foi nomeado capelão de Ludovica Torelli (1500-1569), condessa de Guastalla, em substituição ao padre Pedro Orsi, morto em outubro de 1529. Ludovica, convertida por frei Batista Carioni de Crema (1460 aprox. – 1534), dominicano, queria promover o renascimento cristão de sua gente e, talvez, já tivesse em mente propósitos mais ambiciosos. Ela recebeu, pois, de bom grado, Padre Antônio Maria, em seu castelo, tendo ele, em seguida, mudado para Guastalla, pequena cidade da região da Emília. O jovem sacerdote, provavelmente, já era conhecido da condessa, pois ela tivera a oportunidade de passar uns dias em Cremona. O dominicano frei Batista de Crema, sem dúvida, teve influência nessa designação, já que desempenhava o papel de confessor da condessa Torelli e, logo mais, tornar-se-ia diretor espiritual de Antônio Maria. Este considerava-o como seu «santo junto a Deus», que o «arrancaria de suas imperfeições, pusilanimidade e soberba», fazendo-o, ao mesmo tempo, apaixonar-se por grandes ideais.

A uma exemplar disponibilidade Antônio Maria associou, desde o início do seu sacerdócio, claros propósitos de reforma, concretizados, primeiramente, em sua cidade natal, com a fundação do Cenáculo de reforma, chamado da Amizade, apresentado como «lugar e tempo […] da promessa de renovação dos homens e das mulheres» (Sermão sobre a tibieza). Este Cenáculo tinha sua sede perto da igrejinha de São Vital, bem perto da casa em que nascera o Santo e da igreja de Santo Ângelo (antigamente de São Cosme e São Damião)7, muito cara a S. Antônio Maria porque ali estava sepultado seu pai (a sepultura na igreja – depois proibida por Napoleão – era reservada às pessoas mais importantes do lugar).

Mas, com que disposições de ânimo S. Antônio Maria Zaccaria preparou-se para dar os primeiros passos na sua obra se renovação?

Notas:

7. Esta igreja foi destruída durante a era fascista, sendo substituída pelo Palácio das Artes.

III – Prática dos Conselhos Evangélicos

III – Prática dos Conselhos Evangélicos

«O talento mais precioso: o espírito»

A Angélica Paula Antônia Sfondrati (+ 1603), no livro Origem e Progressos do Mosteiro de São Paulo em Milão,8 depois de definir Antônio Maria como «dotado, entre outros dons espirituais, do privilégio de um grande espírito», afirma que, tendo voltado a Cremona, depois dos estudos universitários, «entregou-se a uma intensa vida espiritual». O que se deva entender por esta expressão foi explicado pelo próprio Antônio Maria, na abertura do Sermão sobre o segundo mandamento do Decálogo onde cunhou a feliz expressão do «talento mais precioso que é o espírito», que ficamos contentes de ver retomada pelo papa João Paulo II, na Exortação Apostólica Vida Consagrada.9

Querendo, porém, entender, com uma frase lapidar, o que Santo Inácio chamará, nos mesmos anos em que Antônio Maria fundava o Cenáculo da Amizade, o «princípio e fundamento» da vida espiritual, devemos valer-nos do Sermão sobre a Tibieza. «O homem – escreve S. Antônio Maria – foi feito e posto neste mundo, só e principalmente para chegar até Deus e todas as outras coisas podem ajudá-lo nisso». Vale notar que, depois de fazer esta afirmação, Antônio Maria retoma-a, em termos ainda mais exigentes: «Como você poderá negar ter sido criado somente para chegar até Deus?».

Antônio Maria julgava que uma tal orientação de vida, em consideração do primado absoluto de Deus e do valor de instrumento inerente a todas as criaturas, devia traduzir-se em não se limitar, apenas, à observância dos dez Mandamentos – que ele estava explicando, nas catequeses, aos freqüentadores do Cenáculo da Amizade –, mas em desejar, também, a adesão concreta aos conselhos feitos em várias passagens do Evangelho e dos quais, depois, originar-se-iam os três votos religiosos de pobreza, castidade e obediência. Abraçar estes últimos constituía, de fato, a garantia da observância dos primeiros, por toda categoria de fiéis, como Antônio Maria tinha aprendido com o estudo dos Santos Padres, principalmente de São João Crisóstomo. E nisto vemos a atualidade do ensinamento do Santo, recordando que o Concílio Vaticano II falou sobre a vocação universal à santidade, na Igreja, nos seguintes termos: «A santidade da Igreja é favorecida, de modo especial, pelos múltiplos conselhos que o Senhor, no Evangelho, propõe à observância dos seus discípulos» (Lumen Gentium, 42/399).

Perguntamo-nos, neste ponto: como se formou no coração de Antônio Maria Zaccaria uma tal orientação para a prática dos conselhos evangélicos, em que ele traduziu o radicalismo desejado por Cristo? Tal orientação tem uma origem remota na sua primeira juventude, e pode ser evidenciada na base do esquema clássico dos três votos. Tomaremos, portanto, em consideração, a pré-história deste esquema na vida de S. Antônio Maria Zaccaria.

Renúncia aos bens

O primeiro dos conselhos evangélicos de que se pode encontrar testemunho na vida de S. Antônio Maria Zaccaria é, sem dúvida, a pobreza. Recordamos o episódio da doação do manto ao pobre, em pleno inverno, quando era ainda adolescente. Obedece ao mesmo espírito de desprendimento dois atos de desistência dos bens que o Santo fez, com dezoito anos de idade, antes de viajar para Pádua. Em 5 de outubro de 1520 redigiu, segundo o uso, o próprio testamento, em favor do primo Bernardo Maria (+1568) e, em l6 de outubro, doou todos os bens à sua mãe, reservando para si – como exigia a lei, para a validade do ato – , somente 100 liras imperiais. Tal gesto, quase inacreditável da parte de um jovem universitário que precisava de meios para manter-se nos estudos, impressionou os biógrafos, especialmente pelas cláusulas anexas: a doação não podia ser revogada por nenhum motivo, mesmo se a mãe se mostrasse ingrata para com o filho e se o próprio Antônio Maria tivesse, mais tarde, filhos próprios para manter.

Outra ocasião apresentou-se quando Antônio Maria foi ordenado sacerdote. Já foi dito que isto aconteceu ad titulum patrimonii10. Em 4 de dezembro de 1531, por meio de um segundo testamento (perdido), confirmou a mãe como herdeira universal dos seus bens e instituiu uma capelania em honra da Conversão de São Paulo, na sua paróquia cremonense de S. Donato11. Enfim, no dia 8 de janeiro de 1532, nomeou como procurador um certo Pe. João Gaffuri (+l547). Não se esqueça também dos dois dotes que, por ocasião de sucessivos matrimônios, garantiu para Venturina (+1566), a filha que o seu pai Lázaro teve de uma relação anterior.

Quanto, pois, à prática da pobreza na vida das Congregações fundadas por S. Antônio Maria, isto é, entre os Barnabitas e as Irmãs Angélicas, será suficiente recordar quanto escreveu o Padre João Batista Soresina (+1601) nos seus preciosos Testemunhos, dizendo que Antônio Maria era modesto no comer e «vestia-se humildemente». Padre João Antônio Gabuzio (+1621), o primeiro e mais respeitado historiador da Ordem dos Barnabitas, acrescenta que o nosso Santo, ao celebrar a missa, escolhia os paramentos mais simples e modestos.

Com uma experiência tão forte da pobreza, compreende-se o rigor com que Antônio Maria recomendou a pobreza para os seus discípulos, fixando diretrizes minuciosas nas Constituições, em cuja redação parece reproduzir as Ordenações de Albacina (1529) com que os padres capuchinhos, no início, impuseram-se rigorosos estatutos. Seria muito significativa uma comparação entre os dois textos.

A verdadeira integridade

Santo Antonio Maria Zaccaria teve em grande consideração a virtude da castidade. Isto evidencia-se pelos apontamentos feitos durante os estudos universitários. Um dos professores da Universidade de Pádua foi Marco Antônio Zimara (+1532), conhecido com o título pejorativo de «bárbaro averroista», dado por Bembo. Editou as obras de Averroé, de S. Alberto Magno, de João de Jandun e de muitos outros filósofos medievais. Compilou um livro de sentenças, dispostas em ordem alfabética, extraídas das obras de Aristóteles e do seu grande comentarista árabe, Averroé, publicado, postumamente, em 1537, sob o título de Tabula cum dilucidationibus in dictis Aristotelis et Averrois.

Devemos deduzir, pelo caderno em ordem alfabética conservado até hoje, por ter escrito nele os Sermões, que Antônio Maria seguiu o método de Marco Antônio Zimara ainda que, certamente, não tenha sido seu aluno. O fato é que, percorrendo os poucos títulos encontrados, podemos encontrar algumas definições tiradas das obras de Averroé, uma das quais diz: «O exercício confere à natureza do homem atitudes que não tinha; e isto se pode aplicar também às virtudes morais e, sobretudo, à castidade». Antônio Maria não parou aí e sob a letra «C» dedicou um título do prontuário à castidade, escrevendo que «ela é de grandíssima ajuda na aquisição da ciência». Trata-se de um pensamento freqüente na filosofia clássica e em S. Tomás. Basta recordar a sentença; «Abstinentia et castitas maxime disponunt ad operationem intellectualem»12 Mas para nós interessa colocar em evidência a grande consideração que S. Antônio Maria teve para com esta virtude, ele que – são suas palavras – desejou sempre «com ardor e alegria a verdadeira integridade do corpo e da alma».

Ágata Sfondrati (+l631), mais conhecida dos narradores destes fatos com o apelido de Angélica Anônima, e à qual se deve a coleção dos Sermões Familiares feitos por São Carlos Borromeu no Mosteiro de S. Paulo, nas Memórias escritas por ela, define S. Antônio Maria Zaccaria como «pura pomba». Considera-o dotado de «pureza e inocência de mente e de corpo»; nos Testemunhos de Pe. Soresina lê-se a resposta dada àqueles que o caluniavam considerando-o homem de pouca honestidade. Pe. Soresina diz que pode convencer a todos da virgindade de Antônio Maria, baseado em fatos concretos. Desta virgindade pode-se dar uma prova que podemos definir como póstuma e que é recordada pelo Pe. Aimone Corio (+l679) nas Concordantiae Morales in Genesim: «Antônio Maria já tinha morrido há algum tempo e os seus restos mortais conservavam-se no mosteiro de S. Paulo das religiosas Angélicas, quando o superior geral dos clérigos de S. Paulo teve o desejo de ver e venerar o corpo do seu amado pai. Foi, pois, e mandou tirá-lo do sepulcro onde jazia fechado em frágil arca e, na presença de umas poucas pessoas de fé admirável, pôs-se a examiná-lo. Encontrou-o íntegro, com as carnes frescas e sem nenhuma corrupção, como se fosse corpo vivo. Então, talvez para observar melhor os pés e as pernas, com gesto respeitoso, levantou um pouco a batina que o cobria até o calcanhar. Senão que, enquanto o Superior Geral estava todo atento na consideração daquele venerável corpo, eis (coisa admirável!) que imediatamente o próprio S. Antônio Maria estendeu a mão direita e, pegando levemente a ponta da batina que o Geral tinha levantado, cobriu-se os pés e as pernas, como se estivesse vivo».

Obediência sempre

Quanto à obediência, podemos assinalar a docilidade de caráter de Antônio Maria e uma verdadeira e própria devoção para com sua mãe. Paula Antônia Sfondrati afirma que ele seguiu a carreira da medicina como a mais condizente com a honra da família, conseguindo laurear-se. Não obstante isso, terminados os estudos e estando prestes a entrar no Colégio dos Médicos Físicos da sua cidade natal, abraçou a carreira eclesiástica, «seguindo o conselho de um dos padres dominicanos de Cremona, tido na cidade por um santo, chamado frei Marcelo». Depois do que, por conselho do padre confessor da condessa Ludovica Torelli, frei Batista de Crema – assim continua Paula Antônia Sfondrati –, Antônio Maria foi ordenado sacerdote».

Segundo o mais bem documentado Pe. Gabuzio, foi o próprio frei Marcelo que aconselhou Antônio Maria a receber as Ordens Sagradas, enquanto o testemunho da Angélica confirma como era decisivo por parte do Santo seguir o conselho dos seus mestres. Uma nova obediência foi-lhe, em certo sentido, imposta quando se tratou de estabelecer a atividade apostólica que deveria desenvolver. Note-se que Antônio Maria tinha, naquele tempo, fundado o Cenáculo da Amizade em Cremona, para promover «a renovação dos homens e das mulheres», e parece que o estava dirigindo com muito fruto. Pois bem, no fim de 1529, tendo ficado vacante a capelania de Guastalla, a condessa Ludovica Torelli, com o consentimento de frei Batista, requisitou Antônio Maria como capelão do seu condado. Pe. Anacleto Secchi (+1636), autor da primeira História dos Fundadores publicada, afirmou que Antônio Maria foi, inicialmente, contrário à proposta aceitando-a, depois, porque vislumbrou nela a possibilidade de continuar, em um contexto novo e mais amplo, o propósito de «renovação» concebido e atuado em sua cidade natal.

Como Fundador, o espírito e a prática da obediência continuaram em S. Antônio Maria. Basta recordar uma afirmação sua, registrada pelo Pe. Gabuzio: «A obediência é o mais importante sinal da humildade, e eu prefiro obedecer aos outros do que ser obedecido por eles, já que a obediência é a mãe de todas as virtudes e o fundamento seguro da Congregação». Não podemos esquecer que Antônio Maria (também por causa da capelania das Angélicas), não quis ser eleito Geral da Congregação dos Clérigos, preferindo que assumisse tal cargo o Pe. Tiago Antônio Morígia (+1546). É sintomático o fato de que tenha imposto ao frei Batista Soresina, com a autoridade moral de que gozava, a pedir, em nome de Antônio Maria, «a bênção para os meus reverendos padres, para o padre Superior Geral (justamente o Pe. Morígia) e para o Pe. Bartolomeu Ferrari»(+1544), o outro co-fundador.

Uma aplicação prática de como Antônio Maria entendia a obediência está, certamente, na carta que enviou ao primeiro núcleo de Barnabitas, na casa perto da igreja de S. Ambrósio, em 3 de novembro de 1538, unindo a si na qualidade de «guia» a angélica Paula Antônia Negri (1508-1555), que será considerada, por mais de um decênio, a «divina madre mestra» das três Congregações zaccarianas. Ele, que já tinha dado para as religiosas a máxima «refugie-se na santa obediência e nunca se afaste dela», aponta resolutamente para a interiorização da norma dizendo que é muito bom ter as «ordens» escritas no papel, mas «não é muito bom, se não se acrescenta que estas ordens estejam escritas, também, nas nossas mentes e nos nossos corações». Ainda mais, devemos humilhar-nos, «obedecendo a todos», ajudando-nos mutuamente.

Se, neste ponto, aprofundamos a comparação entre a vida do Santo e os seus ensinamentos em relação aos votos, damo-nos conta da perfeita correspondência entre o dizer e o fazer. Para Antônio Maria os votos constituíram uma segunda natureza, sinal da total adesão a Cristo e da contestação profética de um mundo cheio de pessoas que se encontram do lado oposto aos três Conselhos evangélicos, porque são «ávidos de coisas materiais», «lascivos», ou seja, sensuais e «seguidores dos próprios pareceres».

Para concluir, podemos referir aos votos quanto Antônio Maria escreve sobre os três primeiros mandamentos: «Agarrado a esta corda de três tranças, com facilidade você sairá do poço da imperfeição […] e chegará ao máximo da santificação, a única coisa que faz do nosso coração um honrado templo de Deus».

Contra a decadência da vida religiosa

Fortificado por uma vida marcada pelo espírito dos Conselhos evangélicos e atento às condições do seu tempo, Antônio Maria diagnosticou, com uma precisão de médico, o mal-estar que atormentava a vida religiosa abraçada por frades e freiras. Disso dão testemunho os capítulos iniciais das Constituições por ele esboçadas, relativos aos três votos e, especificamente, o capítulo sobre os Sinais da decadência dos costumes, ou seja, da disciplina religiosa e, também, sobre a Prática do primeiro mandamento, explicado às monjas Agostinianas de Cremona. Entre estes dois últimos textos pode-se fazer um paralelo que mostra como Antônio Maria tinha um conhecimento claro sobre a condição das Congregações religiosas, que estavam em grave decadência moral e eram, para usar a imaginosa e viva expressão do Santo, como «ovos podres e manteiga estragada».

Façamos, pois, uma releitura dos sinais relativos à decadência da disciplina religiosa, que o Santo denuncia com palavras candentes: «Emporcalhados, ou seja, não guardando em nada os três votos, o que vocês têm – vocês que querem ser espirituais! – que não seja comum com os tíbios?»

O primeiro dos sinais mostra-nos que a «obediência está corrompida», no sentido de que, enquanto crescem imposições e proibições, aumentam o amor-próprio de cada religioso, o individualismo, a desconfiança recíproca, a instabilidade e um sentimento geral de insegurança.

O segundo diz-nos que a pobreza «está em decadência», quando crescem os bens à disposição dos religiosos e, com eles, crescem também a avareza, as exigências e as queixas. Deve-se estar atento, afirma S. Antônio Maria, quando se multiplicam as defesas para a guarda dos próprios bens.

O terceiro sinal mostra como «a primeira e imaculada castidade começou a ofuscar-se e a enegrecer-se». Mas, – perguntamo-nos –, o que podia ser contrário a este voto religioso? Era um modo errado de viver, tanto a fraternidade no âmbito da casa religiosa quanto a relação com os do mundo. Tratava-se, além disso, de fofocas, comodismo, muitos requintes, desperdício de tempo nas distrações, brigas, amizades particulares, etc., e tudo o que desequilibrava e desequilibra a afetividade do religioso, expondo-o a grave crise.

A estes primeiros três, o Fundador acrescenta outros dois sinais. O quarto diz respeito à excessiva indulgência com a gula. Todo um complexo de fatos leva a notar que «o demônio pega os gulosos pela garganta», levando ao afastamento da sobriedade original. Já que a denúncia da gula segue imediatamente à da «ruína» da castidade, não é fora de propósito ressaltar a fina intuição psicológica do Santo. A oralidade é o primeiro centro do desenvolvimento psíquico do homem; regredir a ela significa ser indulgente com a sensualidade e voltar-se sobre si mesmo, na busca de gratificações imediatas.

Já que os votos religiosos requerem um clima geral marcado pela ascese, Antônio Maria acrescenta um quinto e último sinal, que diz respeito à frouxidão geral nos deveres dos religiosos e dos superiores, da qual se deduz que «os bons costumes se arruinam, ou melhor, já estão arruinados». Este é o sinal sobre o qual o Santo mais se detém. Indulgência consigo mesmo e severidade com os outros; adulação e servilismo em relação a quem está mais «no alto»; atenção à «fachada externa», sem preocupar-se em tirar as raízes dos vícios; celebrações feitas para satisfazer à ambição ou à vaidade de alguém; sacramentos recebidos «por hábito», por complacência ou pela utilidade; pregações infrutíferas; reuniões comunitárias totalmente estéreis; disputa nas nomeações; número crescente de sujeitos «indispostos», isto é, fora de lugar ou «deslocados»… eis alguns aspectos que demonstram a «decadência dos costumes».

Notas:

8. Trata-se da Casa-Mãe da Ordem das Angélicas, que a condessa Torelli e Antônio Maria Zaccaria, logo mais, iriam fundar.

9. Exortação Apostólica sobre a Vida Consagrada e sua Missão na Igreja e no Mundo, 25 de março de 1996, n. 55.

10. Entende-se o patrimônio amplamente fornecido pela mãe.

11. Igreja onde seriam celebradas as solenes exéquias do Santo, antes de se transferir seus restos mortais para Milão. O prédio foi demolido nas primeiras décadas do século XX.

12. A abstinência e a castidade favorecem muito a atividade mental. Summa Theologiae 22, l5, 3.

IV – Milão à época do Santo

IV – Milão à época do Santo

Vários acontecimentos no ducado de Milão

Antônio Maria resolveu dedicar todas as suas energias para introduzir na Igreja um punhado de religiosos e religiosas, sinceramente «reformados». Para lançar seu projeto, escolheu uma prestigiosa capital: Milão.

No outono de 1530, chegou em Milão, juntamente com a condessa de Guastalla, Ludovica Torelli, de quem se tornara, como já se disse, o capelão. Esta, em julho do mesmo ano, obtivera do duque Francisco II Sforza, licença para adquirir imóveis na cidade. A capital da Lombardia seria o palco das iniciativas reformistas e ponto de partida para a irradiação das três Congregações zaccarianas. A primeira, dos Clérigos Regulares de São Paulo, sacerdotes que tinham uma dedicação apostólica fortalecida por uma constante referência ao «modelo» e com uma infatigável prática espiritual. A segunda, das Angélicas de São Paulo, religiosas de vida ativa: coisa inédita para aquele tempo. A terceira, de leigos, seus colaboradores, quase sempre casados: de fato, denominavam-se os Casados de São Paulo. Não se deixe de ressaltar a referência contínua ao Apóstolo, que mereceu aos discípulos de Antônio Maria o título de Paulinos.

Neste ponto, é indispensável oferecer uma visão de conjunto do ambiente da cidade de Milão, no qual se desenvolveria a obra dos novos reformadores.

A região da Lombardia destacava-se, na Itália, pela sua magnanimidade. «Nunca vi região mais bela, nem mais rica», notava alguém do séqüito do rei da França. Parecer que não se modificaria, não obstante os graves acontecimentos de que iremos falar, pois, na metade do século XVI, Paulo Giovio, nascido em Como, considerou a Lombardia como «a mais viva e a mais fecunda mina de ouro e de prata» da Península Itálica. Mas guerras, epidemias e fome estavam às portas.

No que concerne ao ordenamento político, após sucessivos acontecimentos que culminaram com a derrota dos franceses, em 1521, Francisco II Sforza, filho de Ludovico, o Mouro, tomou posse no ducado de Milão, com o apoio do imperador Carlos V, da Espanha.. A expulsão dos franceses foi vivida como fruto de um despertar das consciências, num plano político e também espiritual. Despertar este promovido por pregadores, que convidavam as pessoas a implorar a misericórdia divina por meio de obras penitenciais públicas: «cordas no pescoço, descalços, invocando misericórdia», como descreve um cronista da época. A vitória definitiva sobre as tropas francesas ocorreu em 24 de fevereiro de 1525, em conseqüência da batalha de Pavia, em que os franceses foram «quebrados e destroçados».

A ação das milícias, sob as ordens do imperador Carlos V (os famigerados Lanziquenecos), operando em conjunto com as milícias espanholas, resultou num alto preço a ser pago pelas populações da Lombardia, acabando por sujeitar o ducado ao Império espanhol. Em 1529, a Lombardia encontrou-se sob o domínio de Carlos V, também por motivo de ligações familiares13. «Grandíssimas festas e procissões», acompanhadas por repicar de sinos e fogos de artifício, expressavam a gratidão dos milaneses por estarem, finalmente, livres das mãos da soldadesca que devastara seu território.

Chegava ao fim um dos períodos mais funestos para o ducado de Francisco II Sforza.. Milão foi a tal ponto provada a ferro e fogo e submetida a tão repetidos saques, que «era quase maior o número de casas abandonadas do que o de casas habitadas». À guerra somaram-se a fome e a peste. Durante dois anos, desde o verão de 1524, a peste alastrou-se, provocando vítimas e reduzindo a cidade a um deserto. Companheira inseparável da peste, sobreveio a carestia, espalhando a fome por toda a região. A ampliação do contágio, por motivo da migração dos cidadãos, as rapinas dos soldados aquartelados em todos os centros do ducado e os conseqüentes saques de víveres, causaram uma miséria crescente em vastas camadas da população. Em 1528, a peste recrudesceu, esvaziando Milão e despovoando a Lombardia. Os atingidos eram, em sua maioria, pessoas de meia idade e, portanto, aptas para o trabalho. A doença manifestava-se por um suor frio, acompanhado de febre. Causava a morte em 24 horas.

A crise de ordem espiritual unia-se à crise no plano material. «A decadência da consciência moral coletiva era mais evidenciada pelos duros apertos que as guerras e a arrogância dos diferentes patrões impunham aos pobres indivíduos. Nos repentinos revezes, a miséria econômica, tornando-se bem depressa miséria moral, produzia horríveis ruínas».

A restauração de Francisco II Sforza

Francisco II Sforza, uma vez tomadas as rédeas do governo lombardo (em 1529), trabalhou pela reconstrução do Estado, mesmo devendo aceitar uma progressiva «espanholização». Cremona já tinha passado, há tempo (1526), a ser governada por Milão, enquanto o condado de Guastalla estava ligado ao ducado de Milão por antigos laços de amizade. Isto explicará, posteriormente, a ida de Antônio Maria Zaccaria e de Ludovica Torelli para a cidade lombarda.

Francisco II Sforza viu-se diante de um Estado «cheio de misérias e danos, comparando-se com tempos passados – descreve uma pessoa da época –, misérias e danos que não poderão ser restaurados em um curto espaço de tempo, as fábricas estando arruinadas e as pessoas mortas, pelo que faltam as indústrias e as entradas públicas» e privadas.

Não obstante condições tão desanimadoras, o duque encaminhou um conjunto de medidas, destinadas a fortalecer o território, sobre o qual, em breve, cessariam tentativas de retomada da parte dos franceses. Indicativo do novo equilíbrio alcançado na Península Itálica foi o encontro entre o papa Clemente VII e o imperador Carlos V, ocorrido em Bolonha, em 17 de fevereiro de 1533.

No dia seguinte, o Pontífice, ainda em Bolonha, entregou a Antônio Maria Zaccaria e a seus primeiros companheiros, o breve de aprovação da Congregação nascente. Eram acolhidos, com gesto profético, os desejos, formulados «com humildade de espírito» (como dizem as palavras iniciais do breve), por estes audazes reformadores, que tiveram sua intenção aprovada, mesmo ainda não tendo uma sede adequada, regras oportunas e um mínimo de organização interna. Os Paulinos tiveram, então, ocasião de assistir à visita do Imperador à cidade de Milão, no dia 10 de março imediato. Façamos uma leitura da crônica da época: «Chegou em Milão o imperador Carlos V e, com pouca gente, entrou pela Porta Ticinesa – justamente a região habitada pelos nossos – e foi à Catedral e de lá foi hospedar-se no Castelo» do duque Francisco II Sforza, «e sem muito luxo. Simplesmente as ruas estavam enfeitadas com véus e foi-lhe colocado o pálio sobre a cabeça; mas, quanto a ele, não ostentava luxo, vestia-se dignamente e tinha uma aparência muito boa. E, assim, nosso duque cedeu o Castelo ao Imperador e foi hospedar-se em S. Maria das Graças, o convento dominicano ao qual pertencia Frei Batista de Crema, diretor espiritual da condessa Torelli e de S. Antônio Maria Zaccaria. Ornamentos e insígnias imperiais enfeitavam todas as portas da cidade e sobre o portal da Catedral havia uma grande inscrição latina, nestes termos: «Depois de vencer os turcos, trazer a paz para a República cristã e unir a Itália com um novo pacto, ótimo César, há muito esperado, ampara e ajuda esta cidade, provada e aflita por tão numerosas calamidades». O Imperador foi, assim, acolhido como defensor da paz e da unidade da República cristã, a Itália.

O generoso esforço de reconstrução material e moral, levado avante pelo duque, não durou muito. Com saúde precária, Francisco II Sforza morreu em 2 de novembro de 1535, com apenas 40 anos de idade e sem deixar herdeiros. Com ele, desapareceu também o sonho de restituir a Milão uma real independência. Sabemos que a sucessão foi difícil, até o ponto do ducado, encravado entre o centro da Europa e a Península Ibérica, ser considerado «pedra de escândalo», por causa da longa discussão sobre seu futuro ordenamento político: era necessário que ficasse sob domínio espanhol, mas sem entrar em choque com a França. Dividido entre diversos projetos de alianças dinásticas, finalmente, em 1545, submeteu-se ao governo do duque de Orléans, que morreu pouco depois, de modo que Carlos V, em 5 de julho do ano seguinte, pôde dar posse ao próprio filho Filipe. Daquele momento em diante, o ducado de Milão passou a viver, totalmente, sob domínio espanhol. Tinham- se passado sete anos da morte de S. Antônio Maria Zaccaria e as Congregações fundadas por ele estavam conhecendo uma promissora primavera.

Cenário religioso

Se, no perfil político e social, o ducado de Milão já se tinha, então, pacificado, por obra de Francisco II Sforza, não se pode dizer o mesmo, quanto ao perfil religioso. Como já se sabe, havia o costume de governar as dioceses através de representantes, e a diocese de Milão não fazia exceção. Ali, já se estava acostumado a considerar o bispo como uma pessoa que governava mediante vigários. Foi assim que, a Guidantônio Arcimboldi, arcebispo desde 1489, sucedeu, em 1497, Hipólito I do Leste, cunhado de Ludovico, o Mouro. Tendo, no entanto, apenas 18 anos de idade, faltando-lhe, assim, uns dez anos para poder ser ordenado bispo, foi considerado apenas administrador da diocese, à qual renunciou, em 1519, um ano antes de morrer, em favor de seu sobrinho homônimo, Hipólito II do Leste, que tinha, então, 10 anos de idade: de mal a pior, dir-se-ia. Este último obedeceu ao costume da época, até que, depois de vários acontecimentos, renunciou ao cargo, em 1560, propondo que a diocese fosse confiada a São Carlos Borromeu. Os dois Hipólitos não deixaram saudade, por causa do espírito mundano, que propiciou a definição, sobretudo do segundo, como «gênio sinistro da corrupção da Igreja».

Se o clero diocesano registrara «sérios abalos», em conseqüência dos acontecimentos acima mencionados, não muito diversa era a situação das Congregações religiosas na região da Lombardia. Os saques e devastações, perpetrados, inclusive, no interior dos conventos («invadiam as casas e entravam nos mosteiros de monjas e de frades, e ali comiam até a saciedade»), provocaram fugas, até bem numerosas, das comunidades, de tal modo que muitos passaram a viver como «monges errantes», fora dos muros conventuais. Os Sforza apoiavam as iniciativas de reforma, promovidas, especialmente, pelo ramo de «religiosos observantes», facilitando-lhes, para garantia de seus ideais de reforma, a isenção da obediência ao bispo, com a direta dependência do Sumo Pontífice. Não obstante isso, documentos da época lamentam que «na cidade e na diocese existem muitos mosteiros de monjas que, para não seguir a observância regular, enveredam-se em uma vida e costumes tão depravados, que não se poderia pensar pior, sempre mais incompatíveis com a dignidade da cidade e a honra dos cidadãos». A crise das Congregações religiosas, em alguns casos, atingiu proporções tão grandes, que se chegou a chamar os frades de «maltrapilhos mendicantes» e os conventos de «casas de prostituição» ou, usando uma expressão do livro do Apocalipse, de «sinagogas de Satanás».

Nota:

13. Francisco II Sforza era parente de Carlos V, pelo lado da mulher.

V - A obra da reforma

V – A obra da reforma

Estratégias pastorais

Não faltavam, porém, indícios de sincera conversão, que seriam recebidos com simpatia pelas famílias zaccarianas. Antes de tudo, a difusão da Palavra de Deus. De 1470 em diante, e por quase todo o século seguinte, foram feitas muitas edições das Epístolas e dos Evangelhos Dominicais, em italiano, segundo o rito romano, rito que S. Antônio Maria Zaccaria adotou para as suas Congregações. Sobre esta base, a pregação sacra renovou-se, fundamentada no texto bíblico e inserida no contexto litúrgico e, por conseguinte, não mais baseada em histórias, muitas vezes imorais, contadas ou lidas no púlpito, prática que, desde o ano 1300, desenvolveu-se sempre mais. Tal será a pregação em vigor nas três Congregações fundadas por S. Antônio Maria, como testemunham as Cartas Espirituais, endereçadas aos Paulinos, pela angélica Paula Antônia Negri, sobre as festas do Senhor e dos santos.

Muitas eram, além disso, as confrarias do Santíssimo Sacramento, a mais antiga das quais datando do ano de 1439. A estas ajuntaram-se muitas outras, inclusive a iniciativa promovida na igreja do Santo Sepulcro, a partir de 1527, ano em que Roma foi saqueada! Aqui, justamente, por quatro vezes ao ano (Semana Santa, Pentecostes, Assunção de Nossa Senhora e Natal), costumava-se adorar a Eucaristia, por todo o tempo que se supunha Cristo tivesse passado no túmulo. Assim teve início, como veremos melhor depois, as Quarenta Horas solenes e continuadas de adoração ao Santíssimo Sacramento, de igreja em igreja. Parece que S. Antônio Maria quis «lançar» esta idéia, desde 1534, chegando a concretizá-la três anos depois, obtendo, inclusive, a aprovação do papa Paulo III para esta prática, expressa em um breve de 28 de agosto de 1537.

Muito grande, também, era a devoção a Cristo Crucificado, como provam as meditações sobre a Paixão de Cristo, editadas na língua vernácula, em Milão, nos anos de 1510 e 1515, e o Offícium Sanctae Crucis, editado em 1536, junto com o Ofício de Nossa Senhora. A devoção a Jesus Crucificado registrou um forte incremento, sobretudo como conseqüência dos trágicos acontecimentos verificados a partir do ano de 1520 (recordemos o tríptico apocalíptico da peste, fome e guerra). O papa Clemente VII enviou aos milaneses, em 30 de agosto de 1531, uma bula em que expressou a sua emoção em saber como eles não se deixaram abater por tantas desgraças, mas antes, «mais fortes na fé, na esperança e no amor, com piedosa e admirável devoção, todo dia, às três horas da tarde, acostumaram-se a ajoelhar e rezar recordando, com o toque de um sino para isto designado, a passagem triunfal de Cristo ao Pai». As copiosas indulgências anexas ao piedoso exercício fizeram crescer a sua fama na cidade até o ponto do pregador da Quaresma do ano seguinte anunciar, na Catedral, que apresentaria aos fiéis «Cristo Crucificado, vivo». E «quase toda Milão» foi vê-lo. Impossível não discernir neste evento a presença dos Paulinos. Um antigo cronista, João Marcos Burigozzo, narrou que um grupo de homens e mulheres «com fama de santidade» e levando vida comum, «obtiveram a licença de tocar longamente o sino, toda sexta-feira, na hora em que Cristo morreu; E alguns deles, sobretudo mulheres, encontravam-se na Catedral naquela hora, todos com cabeça baixa e braços abertos. Calcula-se que, atualmente [1532], sejam cerca de mil pessoas.

Contra a doutrina luterana

Milão soube ficar, também em virtude do reflorescimento da piedade, substancialmente estranha à heresia luterana, considerada mais como convite à reforma interior e dos costumes, e não como ameaça à integridade doutrinal. A doutrina de Lutero encontrara terreno favorável na parte meridional e oriental da região da Lombardia, naquela «ecclesia cremonensis» que daria o maior número de exilados para Genebra, entre todas as cidades italianas, exceto Luca. Entrando na Lombardia em 1519, por obra do livreiro nascido em Pavia, Francisco Calvi, que tinha negócios também em Milão, as obras de Lutero foram, imediatamente, refutadas pelo dominicano observante Isidoro Isolani, que publicou, em Cremona, onde era professor de teologia na universidade da sua Ordem, uma Revocatio Martini Lutheri ad Sanctam Sedem. Diga-se, entre parêntesis, que Isidoro Isolani, talvez desconhecido por Antônio Maria durante os seus estudos de teologia, era um daqueles que propunham uma leitura atualizada do livro do Apocalipse, segundo uma orientação que esclareceremos melhor, logo mais. Um eco das doutrinas luteranas que circulavam na Lombardia, podemos encontrar, também, nas primeiras páginas da Philosophia Divina de Frei Batista, o escrito que convidava ao seguimento do «único verdadeiro mestre, Jesus Cristo Crucificado». «Já que tu, ó Deus, és único, – escreve o dominicano – certamente queres uma única Igreja, e não tantos cismas e heresias; o que acontece com Martinho Lutero, que quer fazer cisma e dividir o que é não apenas um, mas união, e até comunhão. A Igreja não faz cisma, nem divisão, mas confessa uma santa mãe Igreja romana».

Não obstante as advertências em relação às doutrinas heréticas, da parte do Imperador e do Papa, pelos anos 1520 e, ainda, no final de 1531, precisamos chegar a 1535 para encontrar uma primeira prova da propagação da heresia, a saber, a condenação de «alguns, entre os quais um sacerdote, que eram por todos chamados luteranos», os quais fizeram abjuração na Catedral e o rito desenvolveu-se com uma solenidade muito grande, para impressionar e advertir o povo. Nesse tempo, prepararam-se listas dos livros escritos pelos reformadores, como a aprontada, em 1538, pelo inquisidor dominicano Isidoro Isolani.

Antônio Maria Zaccaria, de sua parte, já tinha advertido, ao expor o Decálogo na sua cidade natal, contra «pareceres e invenções humanas, como heresias, novas opiniões dos homens e […] o não querer operar segundo o pensamento comum da Igreja». Quando se transferiu para Milão, aprontou para os seus um texto de Constituições em que, além da Bíblia, recomenda a leitura de «todo autor aprovado pela Igreja e dos livros dos Santos Padres, desde que os seus escritos não sejam contrários aos dizeres da Sagrada Escritura e dos santos Doutores».

Esperas e fermentos de reforma: o Oratório da Eterna Sabedoria

Refletindo sobre os anos que precederam a vinda de Antônio Maria para Milão, deve-se notar que as expectativas político-religiosas que constituíram o núcleo da pregação de Jerônimo Savanarola (+1498), a precária situação dos Estados italianos nas primeiras décadas do século XVI, a crise institucional da Igreja e os fermentos reformadores surgidos no seu interno, e também os sinais do céu, como a famosa conjunção dos planetas, em 1524, suscitaram em muitas consciências, um grande despertar profético e penitencial.

Circulava nos ambientes eclesiásticos mais sensíveis, um tratado manuscrito, com o título inquietante de Apocalypsis Nova. Tinha-o inspirado, se não o redigiu por inteiro, um franciscano observante, residente , desde 1466, no convento milanês de S. Maria da Paz, bem perto da igreja de S. Barnabé, o português Amedeu Menez da Sylva (+1482), passado aos pósteros com o nome de bem-aventurado Amadeu. Trata-se de uma figura emblemática, que foi comparada com Joaquim de Fiore (+1202), o cisterciense que anunciava a era do Espírito Santo, e com Vicente Férrer (+1419), o dominicano espanhol conhecido como o Anjo do Apocalipse, que, em 20 anos de pregação, considerou a passagem da Idade Média para a Moderna como o fim do mundo. Foi o conjunto dos vaticínios do bem-aventurado Amadeu, que preconizava a reforma da Igreja e a chegada de um «papa angélico», que influenciou a venerável agostiniana Arcângela Panigarola (+1525)14 , a qual comunicou as próprias «visões» ao sacerdote de Ravena, João Antônio Bellotti +(1528). Os seguidores de Arcângela Panigarola eram chamados «Discípulos da Eterna Sabedoria» e entre estes encontravam-se muitos eclesiásticos sensíveis à causa da renovação cristã. Na direção do Oratório estava Dom Francisco Landini, antes Vigário Geral e, depois, bispo titular de Laodicéia, mas exercendo o episcopado em Milão, em substituição ao cardeal Hipólito II do Leste. Entre os membros do Oratório da Eterna Sabedoria, recordaremos o Vigário Geral João Maria Tosi, o dominicano Melquior Crivelli, e um outro dominicano, Miguel Ghislieri, o futuro papa Pio V. O vínculo que unia nomes tão prestigiosos fica claro por algumas circunstâncias bastante significativas. Francisco Landini, por exemplo, escreveu o prefácio da Cognitione et vittoria di se stesso, a obra que frei Batista de Crema, diretor ideal das famílias paulinas, que o consideravam como o seu anjo da guarda, estava editando no início de 1530 e para a qual, parece, teria pedido a ajuda de S. Antônio Maria Zaccaria. Melquior Crivelli concedeu a autorização para a edição (1531), como fará, também, para a última obra do seu confrade, o Espelho Interior, editada, postumamente, em 1540, depois da morte de frei Batista. Quanto a Miguel Ghislieri, tornando-se o papa Pio V, mostrou grande benevolência para com a Ordem dos Barnabitas e conferiu, em 1569, o episcopado a Santo Alexandre Sauli (+1592), o primeiro barnabita a ser chamado à plenitude do sacerdócio.

Chegando em Milão, não nos admiramos, portanto, que Antônio Maria, imediatamente, fizesse contatos com o Oratório da Eterna Sabedoria e lutasse pela sua abertura a novas perspectivas. A função de Antônio Maria, de fato, foi muito importante para dar novo vigor aos ideais de reforma. Com a restauração dos Sforza e o retorno do ducado de Milão a condições de paz e de prosperidade, abrandaram-se, de fato, os ímpetos proféticos, alimentados entre o fim do século XV e os inícios do século XVI, passagem de século que ofereceu motivo para expectativas apocalípticas e para anúncios de destruição e renascimento eclesiásticos. Até frei Batista ficou contagiado por estas expectativas. Podemos ter uma prova disso na sua primeira obra editada, o Caminho da Verdade Plena (1523). O editor não deixava de considerar o frei dominicano como um dos «novos espíritos, inebriados pela luz celeste da verdade», e de anunciar como iminente o retorno da Igreja «àquela simplicíssima pureza apostólica na qual ela nasceu». Os fermentos reformadores e as previsões proféticas, sob o comando de frei Batista e dos seus seguidores, foram direcionados no caminho da verdadeira disciplina cristã e eclesiástica e manifestaram-se, antes, em ascese, para depois traduzir-se em ardor apostólico. E, de fato, a obra seguinte de frei Batista, o livro já citado «O conhecimento e a vitória sobre si mesmo», foi um itinerário de progressivo avanço espiritual, levando a um verdadeiro e próprio estado de perfeição.

Entre visões e profecias: a «bendita renovação»

Que Antônio Maria tivesse tido pleno conhecimento de como os fermentos espirituais que se estavam agitando entre os dois séculos, fossem destinados a intensificarem-se nas Congregações que ele iria fundar, emerge com toda clareza em uma carta, escrita em 3 de novembro de 1538 e endereçada aos seus primeiros discípulos, os «filhos de Paulo Apóstolo e nossos», o primeiro dos quais Tiago Antônio Morígia. «Se você soubesse – lê-se aí – quantas promessas foram feitas a diversos santos e santas sobre esta bendita renovação, você veria que todas hão de ser cumpridas nos filhos e filhas do nosso amado pai, S. Paulo, se Cristo não os quisesse enganar: o que não poderia fazer, por ser fiel cumpridor das suas promessas».

A historiografia da Ordem não deixou de recordar como o bem-aventurado Amedeu Menez de Sylva, passando onde surgiria, depois, o mosteiro de S. Paulo Converso, das Irmãs Angélicas, nos arredores de S. Eufêmia, e vendo, com apreensão, um conjunto de casas habitadas por uma «manada de mulheres impudicas», profetizou que, um dia, aquele lugar transformar-se-ia num «jardim de virgens puríssimas». «Bendito Deus!, – exclamou – Virá o tempo em que estas casas, agora ninho de demônios, tornar-se-ão morada de anjos». Eram casas de má fama, aquelas 24 edificações, no lugar das quais a condessa Torelli construiria, depois, o mosteiro das Angélicas, e considerou-se um milagre o fato de ter conseguido comprar e tomar posse das referidas edificações, uma a uma, sem que os proprietários de nada suspeitassem. De fato, as casas foram compradas por diversas pessoas físicas, mas quando a coisa ficou conhecida, devendo os contratos tornarem-se públicos, os compradores tiveram que fazer uma declaração pública, no cartório, dizendo que tinham agido como «pessoas físicas, em nome da condessa Torelli». Talvez seja o caso de recordar que o bem-aventurado Amadeu foi sepultado em S. Maria da Paz, em Milão.

Acrescentaremos que não é improvável que S. Antônio Maria tenha tido contatos com a figura do bem-aventurado Amadeu que, em 1460, fundou em Castel Leão, vilarejo nos arredores de Cremona, um convento de Frades Menores Observantes. Assim se explica a parada, exigida pela população daquela pequena cidade, do cortejo fúnebre que, em julho de 1539, acompanhou os restos mortais de S. Antônio Maria ao mosteiro de S. Paulo Converso, onde ficariam até 1891, em companhia dos de frei Batista, infelizmente perdidos.

Quanto à venerável Arcângela Panigarola, ela informou, em agosto de 1516, ao cardeal de S. Malo, Guilherme Briçonnet, que morava em Roma, sobre as duas visões, acontecidas em 21 e 24 de junho do mesmo ano. A primeira dizia respeito ao estado miserável do ducado de Milão e à esperança de, um dia, as coisas melhorarem. Na segunda ela viu S. João Batista, de quem se celebrava a festa, voltar-se para o referido cardeal, e dizer-lhe: «Consola-te e sê forte, porque, logo, o povo de Deus, que por tanto tempo habitou um deserto esquálido e espinhoso, será introduzido numa terra onde correm leite e mel. Quero ver-te, com grande alegria, bendizer o Senhor por tantos e tão grandes benefícios conferidos ao seu povo». Dois anos depois, Arcângela Panigarola. sempre escrevendo a Guilherme Briçonnet, voltou a lamentar a decadência dos costumes e a crise da vida religiosa na maior parte dos mosteiros, sem que aparecessem ministros capazes de promover a desejada reforma. Terminava, porém, dizendo estar convencida de que, «em breve, Deus mandaria ministros mais santos». E, de fato, no livro das Revelações da venerável madre Arcângela Panigarola – cuja primeira edição foi feita pelo próprio João Antônio Bellotti – lê-se que, «estando aquela serva do Senhor no seu oratório, rezando com todo fervor pelos discípulos do Oratório da Eterna Sabedoria […], ela entrou em êxtase […], e viu o Senhor sentar-se em uma belíssima e alta poltrona. E, estando assim aquela alma, o anjo que a guiava disse-lhe: «Presta atenção, pois agora verás todos os discípulos da Eterna Sabedoria». E, imediatamente, surgiu grande multidão de homens e mulheres […], e estavam todos vestidos como frades, monjas, religiosos e leigos». É evidente que a priora de S. Marta previu a transformação do Oratório da Eterna Sabedoria nas três Congregações zaccarianas, isto é, os Padres e Religiosos Barnabitas, as Irmãs Angélicas e os Leigos de S. Paulo.

É na luz deste conjunto de dados que se inicia a ação reformadora de S. Antônio Maria Zaccaria e dos seus.

Nota:

14. Indicativo o fato de que o bem-aventurado Amadeu tenha escrito a vida de uma monja de S. Marta, a mística Verônica Negroni (+1497), co-irmã de Arcângela Panigarola.

VI – Os primeiros passos da Família zaccariana

VI – Os primeiros passos da Família zaccariana

Os historiadores concordam em afirmar que Antônio Maria, chegando em Milão junto com a condessa Ludovica Torelli, em 1530, inscreveu-se no Oratório da Eterna Sabedoria. Já acostumado com este tipo de experiência, ele encontrou, por assim dizer, pão para os seus dentes, neste grupo leigo de reforma, que se sediava no mosteiro das Agostinianas de S. Marta. Antônio Maria Zaccaria deu novo vigor a uma instituição que parecia em declínio, depois da morte da priora, em 1525, a venerável Arcângela Panigarola, sua alma carismática, seguida, três anos depois, da morte de João Antônio Bellotti, seu fundador. É bem provável que tivessem pertencido ao Oratório da Eterna Sabedoria, há mais tempo, Tiago Antônio Morígia, dirigido espiritualmente por Dom Francisco Landini, e Bartolomeu Ferrari, os quais, nos meses seguintes, estariam ao lado de Antônio Maria Zaccaria, da condessa Torelli e de frei Batista, na fortaleza de Guastalla, para planejar as futuras estratégias pastorais. Desta fortaleza não resta mais nada, mas consta como certo que havia nela uma capela com uma imagem de madeira da Virgem Maria, conservada ainda hoje na igreja matriz da cidade. É certo, também, que Antônio Maria dispunha ali de um quarto onde ficava nas suas repetidas estadias em Guastalla. O nosso Santo insiste no seu projeto, escrevendo aos dois «irmãos» milaneses uma vibrante carta, no dia 4 de janeiro de 1531 – ano que assinala, sem dúvida, o estabelecimento definitivo de Antônio Maria Zaccaria em Milão – , na qual convida-os a não demorar mais em relação à fundação das novas Congregações, lançando um autêntico grito de guerra: «Corramos como loucos, não só para Deus, mas também para o próximo». Deve-se dizer também que, no interno do Oratório da Divina Sabedoria, Antônio Maria e os dois co-fundadores renovaram antigas amizades (pense-se em Serafim Aceti de Fermo, seu companheiro de estudos em Pádua), e começaram novas, como com o inquisidor dominicano Melquior Crivelli que, em 1o de novembro de 1547, consagrou a igreja de São Barnabé, obra planejada pelo próprio Antônio Maria, dez anos antes, como confirma uma carta de 8 de outubro de 1538.

Barnabitas e Angélicas e a sua permanência em Milão

Pode-se dizer que a permanência em Milão, no Oratório da Divina Sabedoria, tenha durado três anos. A condessa Torelli, com as suas companheiras, moravam perto da igreja de Santo Ambrósio. Ali residia, também, Pe. Antônio Maria Zaccaria, na qualidade de capelão, e ali reuniam-se os seus ajudantes e primeiros companheiros. Nesse ínterim, foi apresentado ao santo Padre o papa o pedido de fundação efetiva do ramo masculino que, posteriormente (bula do papa Paulo III, de 24 de julho de 1535), chamar-se-á Clérigos Regulares de São Paulo, já aprovados, como se viu, pelo papa Clemente VII, em 1533. Em 29 de setembro de 1533, Antônio Maria e Bartolomeu Ferrari transferiram-se para uma casa nos arredores da Porta Ticinesa, perto da igreja Santo Ambrósio, só o espaço de uma «camminatella», como ainda hoje se chama a pequena rua que começa na atual capela dedicada a S. Agostinho que, conforme a lenda, aqui teria sido batizado. Ao lado, uma lápide escrita em latim relembra os «primeiros passos» da Congregação dos Barnabitas. Na atual rua Fabbri, surgia a igreja de S. Catarina de Alexandria, perto da Ponte dos Operários (destruída no fim do ano 1700), em cujo interior existia – note-se a coincidência – um altar dedicado a S. Pedro e S. Paulo. Aqui a Congregação dos clérigos deu os primeiros passos, aí residindo até 29 de setembro de 1535, quando a pequena comunidade transferiu-se para a casa perto da igreja de S. Ambrósio, deixada livre pelas Angélicas e doada, em seguida, aos Barnabitas, pela condessa Torelli, em 12 de abril de 1539, poucos meses antes da morte de Antônio Maria Zaccaria.

Entrementes (1o de janeiro de 1534), morreu em Guastalla frei Batista de Crema, assistido por Antônio Maria, mas agora o empreendimento já estava bem encaminhado. Nos meses de verão do ano anterior, outros sete companheiros uniram-se a Antônio Maria e Bartolomeu Ferrari, entre os quais João Batista Soresina e Tiago Antônio Morígia, tendo todos recebido o hábito religioso. A nova moradia, perto da igreja de S. Ambrósio, acolheu por l0 anos a bandeira dos Paulinos, e aí inaugurou-se um pequeno oratório em honra de São Paulo Decapitado, aberto ao público em 1542.

À semelhança do masculino, também o ramo feminino, o das Irmãs Angélicas, transferiu-se para o mosteiro construído pela generosa condessa Torelli e situado na região de S. Eufêmia onde, como já se disse, foram felizmente compradas umas 20 casinhas, depois demolidas. O papa Paulo III, na bula de 15 de janeiro de 1535, aprovou a sua fundação, pondo a Congregação sob a regra de S. Agostinho, tanto que, no começo de outubro próximo, a condessa Torelli pôde entrar na nova sede com as religiosas que, logo (1536), denominar-se-ão Angélicas, nome proposto pela noviça mais jovem, Inês Baldironi, e confirmado pelo papa Paulo III, no breve de 6 de agosto de 1549. No Natal de 1535, com a celebração da Missa por S. Antônio Maria Zaccaria, foi abençoado o novo mosteiro que, no mês de janeiro seguinte, foi colocado sob a proteção de São Paulo Converso. Assim, procedeu-se à vestição das primeiras monjas. Em 27 de fevereiro de 1536, receberam o hábito seis irmãs, começando por Paula Antônia Negri e Dominga Batista de Sexto (+1551) e, no dia 4 de março, a primeira foi eleita Mestra de noviças e a segunda, Priora do mosteiro. Com pouca distância de tempo, também o ramo masculino dos Barnabitas, valendo-se das faculdades concedidas pelo papa Paulo III na citada bula de 24 de julho de 1535, elegeu o próprio Superior Geral, na pessoa de padre Tiago Antônio Morígia (15 de abril de 1536), preferindo Antônio Maria, que todos denominavam «o Maior», dedicar-se à formação das suas «dulcíssimas e diletas vísceras», as «divinas e amáveis filhas, as Angélicas», que despertariam «inveja» no próprio São Paulo, pelo amor a Cristo e pelo zelo pela salvação das almas.

Absolvidos em dois processos

Juntamente com os ventos que pareciam soprar plenamente a favor da fundação das novas Ordens religiosas, logo levantaram-se ventos contrários, sobrevindos por causa do estilo de vida humilde e penitente, abraçado pelos discípulos de S. Antônio Maria, provenientes, quase todos, da nobreza milanesa. Padre Soresina escreve na pequena Crônica C (uma espécie de diário das origens), que «o nosso início foi fazer mortificações públicas, em Milão e em casa». A estas, acrescenta-se a pregação, que fustigava a degradação dos costumes e a tibieza que se alastrava, e pela qual contestavam-se antigas heresias e a difusão da reforma protestante nos outros países da Europa. Antônio Maria e os seus companheiros «eram mal vistos por muitos, tanto religiosos como leigos» – lê-se nos Testemunhos de Pe. Batista Soresina – , eram considerados «como loucos», «hipócritas», de «pouca honestidade» pelo modo como se mortificavam ou corrigiam os próprios defeitos, nas reuniões diárias da comunidade (também chamadas «capítulos»); chegou-se a considerá-los seguidores dos Beghini e dos Pobres de Lião, que consideravam humanamente possível conseguir-se o estado de impecabilidade, e pertenciam a uma seita, inspirada em frei Batista de Crema e na sua doutrina, considerada herética.

Foi assim que as autoridades civis e eclesiásticas de Milão (Senado, Cúria e Inquisição), encaminharam pesquisas e instruíram processos. O primeiro teve início em 5 de outubro de 1534 e concluiu-se favoravelmente, sem necessidade de emitir nenhuma sentença. Este processo transformou-se, antes, em uma apologia dos Barnabitas, pela boca do presidente do Senado, Tiago Felipe Sacco que, inspirado por Deus, usou as palavras do livro da Sabedoria, esconjurando que não devessem, talvez, aplicar-se contra os acusadores e os juizes deste caso: «Éramos insensatos, considerando a vida deles uma loucura, e desprezível o seu êxito. Olhem como foram contados entre os filhos de Deus e como a sua sorte foi a dos santos» (cf. Sab 5,4-5).

Entretanto, os adversários não se deram por vencidos, antes, até aumentaram a dose, induzindo os Superiores dos Paulinos a pedir que o processo fosse reaberto, para  se chegar a um pronunciamento explícito, que afastasse qualquer obstáculo à futura atividade que tinham em mente desenvolver. Isto acontece a partir de junho de 1536 e, logo em 21 de agosto de 1537, foi emitida uma sentença, plenamente positiva, assinada pela Cúria Diocesana, pela Inquisição Lombarda (na pessoa de Melquior Crivelli), e pelo Senado de Milão.

Nós podemos imaginar o embaraço e as apreensões que as fileiras dos Paulinos tiveram, por causa desta série de suspeitas, calúnias, denúncias e ameaças, que chegaram até o ponto de instigar a multidão a queimar os padres na própria casa, assegurando que fariam um sacrifício agradável a Deus.  Mas é justamente aqui que podemos descobrir como os filhos e filhas de Antônio Maria Zaccaria tomaram com extrema seriedade sua referência ao apóstolo São Paulo, que honravam como Converso e Decapitado.
Para cumprir a própria missão no mundo, eles teriam de enfrentar uma série de impecilhos de natureza interior (daí a prática contínua da mortificação e da correção dos próprios defeitos) e um conjunto de dificuldades de ordem exterior, que Antônio Maria considerava como as cercas de espinho, com que os agricultores protegem os seus campos. De fato, o Pe. João Batista Soresina afirma que, no auge da perseguição, Antônio Maria Zaccaria «falou com grandíssimo fervor sobre o bem da mortificação, concluindo que o Senhor, para defender sua vinha, envolveu-a com uma cerca de ofensas e humilhações». Trata-se da alocução do dia 4 de outubro de 1534, considerada tão importante que foi introduzida na liturgia da festa de S. Antônio Maria Zaccaria, no dia 5 de julho, como característica da figura e da doutrina do Santo. «A nossa vocação – insiste ele – é o seguimento de Cristo e a imitação dos apóstolos. Como aconteceu com eles, também os seus seguidores serão submetidos a perseguições que, porém, transformar-se-ão em fonte de vitalidade para a Congregação e, sem dúvida, em título de glória eterna. Ai de nós, se formos soldados vis ou desertores»!

O «Capítulo das Lágrimas»

Notem-se algumas coincidências. Em pleno clima de indagação e um dia antes do início dos processos, Antônio Maria chama junto a si os primeiros seguidores e dirige-lhes graves palavras. «Não podemos fugir da perseguição; ela é parte integrante da nossa escolha de vida e critério da autenticidade da nossa missão. Quem não se sente pronto a obedecer a estas regras, pode deixar o grupo», que já era muito reduzido! E sabemos por Pe. Soresina como foi vivido aquele que podemos definir como o Capítulo das Lágrimas: «nós nos comovemos tanto, que nos lançamos por terra, chorando muito e, com grandes promessas de perseverar e com um coração resoluto, prometemos a Deus caminhar pela estrada do desprezo. Finalmente, animamo-nos de tal modo que, tirando toda frieza dos nossos corações, prometemos todos dar a vida e o sangue por amor a Nosso Senhor, que por nós morreu na cruz. E, assim ajoelhados, abraçamo-nos, e resolvemos, com abundantes lágrimas, fazer tudo que Antônio Maria nos dissesse, sem nenhuma exceção. Assim, começamos a viver juntos, na pobreza, e a tender, com solicitude, à mortificação e à extirpação dos vícios e paixões, para ganhar o próximo, não poupando fadigas para ajudar a todos». A perseguição surtiu, pois, um primeiro efeito: chamou os Paulinos a fortalecer-se na virtude e a entrar, com decisão, na ótica evangélica da bem-aventurança de quem sofre perseguição por causa do Reino

Mas existe uma outra coincidência, que se refere ao segundo processo. Justamente quando os Paulinos estavam, de novo, sob investigação, e com acusações mais pesadas, Antônio Maria toma a corajosa decisão de sair dos confins do ducado de Milão e «espalhar» as suas milícias, no desejo de anunciar a vivacidade espiritual e o espírito vivo, por toda parte». Tinha razão ao afirmar que, como foi para a Igreja, nas suas origens, (crescia, em proporção aos obstáculos que encontrava), «assim, este pequeno membro da Igreja […] aumentará e tornar-se-á mais forte».

Ascese e apostolado: os dois eixos da «verdadeira reforma»

O estado de emergência em que se encontravam as Congregações zaccarianas, tornou ainda mais urgente a necessidade de aperfeiçoar os instrumentos da reforma. Isso comportou, nos futuros apóstolos, antes de tudo, a superação dos impedimentos de natureza interior, que foram afrontados, com a negação do próprio eu. O ideal de vida abraçado por S. Antônio Maria Zaccaria e seus seguidores implicou numa profunda renovação de pensamentos, sentimentos e comportamentos. Devia nascer o homem novo, cujo ornamento seria «a virtude e o máximo da virtude» para, depois, deparar-se com as inevitáveis dificuldades que a Missão iria comportar.

Recordando, pois, que São Paulo acrescentou ao nome hebraico de Saulo, o nome romano de Paulo, na qualidade de cidadão do Império, Antônio Maria viu nisso exemplificado o caminho ascético da passagem de Saulo, «figura do homem imperfeito», para Paulo, «vivo exemplo» de Cristo. «Eis Saulo – escreve em uma carta de 1o de junho de 1539 – isto é, a face do nosso primeiro homem e a semelhança das nossas más inclinações ou paixões». E eis Paulo, que conquistou «um ser interior e exterior de santo».

O caminho espiritual que assegura a passagem do homem velho ao novo, a maneira pela qual os seus seguidores tornar-se-iam apóstolos e «apóstolas», para extirpar a idolatria e a tibieza do coração dos homens, encontra-se admiravelmente descrito na carta às Angélicas, de 26 de maio de 1537, sábado da oitava de Pentecostes. Trata-se de um verdadeiro e próprio teste que Antônio Maria propõe às suas «amáveis vísceras».

A carta apresenta uma série de pontos de referência, que indicam o que se deve entender por «ganhar espiritualmente», apostando uma com a outra quem chega a maior perfeição. Eis, em síntese, como o Fundador quer encontrar as suas filhas, um pouco antes da Missão em Vicença

– «Quem acha que adquiriu tal firmeza e perseverança fervorosa nos exercícios espirituais, que nunca mais sinta variedade de espírito, isto é, ora fervor, ora preguiça»;
– «mas um fervor perene, santo, que surja sempre de água viva e tenha vivacidade nova»;
– «quem tenha uma fé tão grande, que toda coisa dificílima pareça-lhe facílima, sabendo, com certeza, que a sua confiança não poderá ser enganada por nenhuma presunção ou vanglória;
– «outra seja perfeita até nas mínimas coisas exteriores, ocupando-se, com empenho constante, não cansando nem desanimando com a limitação das operações exteriores»;
– «outra tenha abandonado totalmente a si mesma, não olhando senão ao próximo, descartando toda utilidade própria, crendo ser de grande proveito não confiar em si mesma, contanto que procure a utilidade do outro, mantendo em si discrição e maturidade contínua na sua atividade»;
– «quem tenha superado a sua tristeza irracional»;
– «quem, a morbosidade do seu espírito»;
– «quem, o medo de não fazer proveito»;
– «quem, o sentido de perda na vitória sobre si mesma»;
– «quem, a impertinência»;
– «quem, a distração»;
– «quem, uma coisa, quem, outra…»

O êxito da ascese da mortificação – que implica um comportamento ativo no aperfeiçoamento de si mesmo – coincide com o êxito da que podemos chamar a ascese da transfiguração – que, por sua vez, implica num comportamento «passivo», receptivo. É o que ensina S. Antônio Maria Zaccaria, continuando a sua carta: tal será o progresso alcançado – conclui – que me faz constatar que vocês «receberam o doutor da justiça, da santidade, da perfeição, isto é, o Espírito Paráclito, o qual não as deixará errar, ensinando-lhes tudo, não as deixará fracas, estando sempre com vocês, não as deixará passar necessidade, dando-lhes tudo, especialmente uma perene paz consigo mesmas (juntamente com a Cruz ignominiosa). e uma vida conforme a de Cristo, imitando os grandes santos, de modo que possam dizer, como São Paulo: «Sejam nossos imitadores, como nós o somos de Cristo (1 Cor 4,16; 11,1)».

Nestas condições, os Paulinos serão dignos seguidores dos seus mestres, dividindo com eles a trilogia programática das Congregações zaccarianas:

«grandeza e nobre largueza de ânimo para com Jesus Cristo Crucificado, para as penas e desprezo de si mesmo, e para a conquista e perfeição consumada do próximo».

VII – Uma missão apaixonante

VII – Uma missão apaixonante

A estratégia ascética proposta pelo santo Fundador representou a melhor premissa para difundir «a vivacidade espiritual e o espírito vivo em toda parte», dedicando-se, alma e corpo, àquela «bendita renovação do fervor cristão» que constituiu, então, e constitui ainda hoje, o carisma de S. Antônio Maria Zaccaria.

Que fosse necessária uma reforma na comunidade cristã, era coisa evidente. Falava-se disso, há decênios, nos ambientes religiosos, e muitos movimentos surgiram para defendê-la, dos cenáculos leigos do Divino Amor às Congregações religiosas, novas ou renovadas. A Igreja tinha deixado para trás o «cativeiro de Avignon» (1308-1377) e o conseqüente «Cisma do Ocidente» (1378-1417), mas o Renascimento, com seu ideal de vida paganizante, acabou por penetrar na estrutura eclesiástica, atingindo a hierarquia. Santos e santas pediram a desejada reforma, tanto que se referiu a ela, mas sem conseguir o objetivo proposto, o V Concílio de Latrão, realizado quando Antônio Maria era ainda adolescente. Nesse ínterim, os monges camaldolenses Vicente Quirini e Paulo Justiniani enviaram ao papa Leão X o Libellus de reformanda Ecclesia (1513), sem resposta, e, quatro anos depois, Lutero levantou a bandeira da reforma protestante, com as famosas 95 teses, afixadas no portal da igreja do castelo de Wittenberg.

Antônio Maria foi envolvido neste conjunto de episódios e inseriu-se na grande corrente reformadora, que teve seu ponto alto no Concílio de Trento (1545-1563) e na obra de São Carlos Borromeu (1538-1584). Isto só foi possível, seguindo-se o programa: reformar-se, para reformar. Enriquecer a Igreja com um «corpo» reformado significou, com isto mesmo, trabalhar pela reforma!

Isto explica por que as regras de vida que Antônio Maria fixou para os seus discípulos, contêm um longo capítulo, com a exposição detalhada das Qualidades do Reformador dos Bons Costumes (Constituições, cap. XVIII), isto é, como se diria hoje, as qualidades da Vida Consagrada. Uma vez conseguida a radical renovação no interior das milícias escolhidas, que são as Congregações religiosas, poder-se-á enfrentar, com sucesso, o árduo empreendimento da revitalização do tecido moral de toda a sociedade.

Se as indicações que Antônio Maria ofereceu para aqueles que tencionavam, sinceramente, «reformar os costumes», diziam respeito aos membros da nascente Congregação de clérigos, no entanto, elas se revestem de um significado mais amplo e podem aplicar-se, por extensão, a todo aquele que deseja, seriamente, a reforma da vida cristã, tendo presente que as «qualidades do reformador dos bons costumes» são, em definitivo, as qualidades do evangelizador.

As qualidades do reformador

Antônio Maria deve ter meditado, atentamente, sobre uma afirmação de Catarina de Sena (+1380), uma santa que ele apreciava muito, no Diálogo da Divina Providência, a saber, que as Congregações religiosas foram «suscitadas pelo Espírito Santo, por meio dos Fundadores», os quais eram «templo do Espírito Santo» que, «com tanta ordem e luz», estabeleceram santas regras. Entretanto, depois, sobreveio muita desgraça nos jardins das Congregações que, em si mesmas, eram santas, porque foram feitas e fundadas pelo Espírito Santo». Até aqui, S. Catarina. Antônio Maria reformulou este mesmo pensamento, nestes termos: «Irmãos, lembrem-se como as Congregações, no passado, foram bem dirigidas pelo Espírito Santo, mas, depois, relaxaram-se», por causa daqueles que «não tinham uma intenção igual a de seus fundadores».

Ousadia e audácia caracterizam a têmpera moral do reformador, o qual deve ter um olhar particularmente agudo ao diagnosticar os males do «relaxamento», coragem suficiente e, também, a ajuda da «divina graça», em vista de um trabalho que supera toda possibilidade humana: «para que você aceite ser aquilo que não é».

Neste contexto, S. Antônio Maria traçou algumas pistas de reflexão e de ação, que são úteis ao reformador. Vejamos:

l. «Nem muito precipitado, nem muito lento», o reformador deve estudar, antes de tudo, «a oportunidade, o lugar, o tempo e as outras coisas que se procuram quando se quer reformar e, também, os companheiros com quem lançar o seu programa de renovação. Nele deve refulgir «a virtude da discrição», que o torna «cheio de olhos, na frente e atrás».

2. Cônscio de «tantos e tão grandes percalços», das muitas adversidades que podem sobrevir ao empreendimento, o reformador deve ter «coração e ânimo grandes». A oposição mais perigosa vem dos «diabos visíveis, isto é, os tíbios». Antônio Maria nomeia, neste ponto, as autoridades civis e eclesiásticas. Os poderosos, leigos ou religiosos, podem boicotar a reforma. Esta bate muito abertamente contra o prestígio e a segurança deles; mostra-se muito provocadora ao comodismo e à hipocrisia deles. Não obstante isso, o reformador deve aceitar as contrariedades e não desanimar, pois a virtude, sem oposição, é de nenhum, ou de muito pouco proveito».

3. No entanto, não é suficiente que o reformador seja «de larguíssimo coração»; é preciso, também, que seja perseverante no seu empreendimento. Sucessos ou insucessos não devem comprometer o empenho da reforma, já que «desagradam muito a Deus os corações volúveis, porque são gerados e nutridos pela infidelidade»: «Quando vires tudo dar errado, não fiques triste, mas continua a  viagem, com constância, pois chegarás ao fim».

4. Requer-se do reformador, também, uma «humildade a toda prova, que não é só ausência de «soberba e presunção», ou capacidade de suportar as coisas mas, sobretudo, disposição de ânimo para a «compaixão», a «tolerância» e, particularmente, a afabilidade: «o verdadeiro humilde é afável, agradecido a todos e, por isso, totalmente apto para a obra da reforma».

Árduo é o equilíbrio entre o ímpeto reformístico e o comportamento bondoso que deve ser característica do reformador, para que ele possa ajudar às «pessoas imperfeitas que, porém, querem progredir», acrescenta imediatamente Antônio Maria, com o costumeiro cunho voluntarístico

5. Ainda, o reformador deve viver em um constante clima de oração ou, como diz o Santo, que aplicou à sua pessoa o que S. Gregório Magno escreveu na sua Regra Pastoral, um texto manuseadíssimo pelas famílias paulinas , deve estar «sempre elevado, pela meditação e oração assíduas». Tal modo de viver a oração, «não permite errar», e oferece «a luz» necessária para agir com conhecimento de causa, e a força para assegurar sucesso ao empreendimento: «A meditação e a oração mantêm o homem forte diante do trono de Deus, pelo que o reformador sabe o que convém fazer e o que se deve evitar».

6. A exigência da «luz», leva Antônio Maria a prescrever uma «intenção muito boa e reta» em quem se incumbe da reforma. Sobre tal requisito, ele escreve mais amplamente.

Antônio Maria relembra as várias tentativas de reforma, que não tiveram êxito porque – assim se expressa – , a intenção dos reformadores era de não se submeter a ninguém, de viver em boa companhia, de poder realizar os seus desejos e fazer coisas grandiosas. Faltava, em poucas palavras, aquela «intenção «sumamente boa e reta», sem a qual muitos trabalharam, mas em vão». A reta intenção, ao contrário, tem exclusivamente em vista «a pura honra de Deus», a «utilidade do próximo», «o desprezo de si mesmo».

Se quisermos reler, segundo a nossa sensibilidade, este programa, que aparece, muitas vezes, nos escritos de S. Antônio Maria, diremos que a verdadeira intenção da reforma é a causa do Reino de Deus, a qual comporta a salvação dos homens, a quem nos doamos inteiramente, em atitude de total desapego de nós mesmos e de serviço pleno e desinteressado. Posta sobre estas bases, a reforma «poderá durar, ao menos, por alguns séculos», afirma Antônio Maria Zaccaria.
Por quais motivos as Congregações religiosas sofrem crises, que Antônio Maria resume, aqui, na confronto entre tíbios e fervorosos, «não é função do presente estudo esclarecê-lo», observa o Santo. Uma coisa é certa: em tal circunstância, Deus quer «coroar diversos capitães». E aqui parece emergir, discreta, a convicção, da parte de Antônio Maria, de pertencer às fileiras destes intrépidos promotores da reforma.

7. O que caracteriza tais homens é a tenácia com que passam «mais adiante e para coisas mais perfeitas». É o seu dinamismo espiritual. «Procura sempre aumentar o que começaste em ti e nos outros, porque a perfeição total é infinita». O Santo insiste em dizer que quem, «por dentro, permanece o que era […], não pode reformar os bons costumes».

8. A última qualidade que deve distinguir o reformador, está condensada em uma frase lapidar: «As coisas divinas sejam tratadas somente por pessoas santas».

A obra da reforma é considerada uma missão divina, um plano que tem em Deus as suas arcanas razões e o seu providencial sucesso. Pode realizar esta obra só quem é «divino e santo», quem desenvolveu, na própria existência, a dimensão cristã, a tal ponto de torná-la dominante, caracterizante. Esta pessoa deve experimentar em si mesmo, e muitas vezes, que «Deus não lhe falta nunca, nas suas necessidades, e na realização de suas boas intenções».

Os companheiros do reformador

No ponto de vista de S. Antônio Maria Zaccaria, para começar a obra da reforma, não é suficiente que exista um reformador: são necessários companheiros que levem o empreendimento a bom termo. A escolha deles é uma questão complexa: alguns serão aceitos, outros, recusados, outros, aceitos só depois. Alguns serão «acariciados», isto é, convidados de modo persuasivo, outros, provados «fortemente e com dureza», por meio de «desprezos».

Neste ponto, já delineado o estilo da reforma, S. Antônio Maria diverte-se em prever o andamento da iniciativa. Primeiro, como se disse, viria o inevitável confronto com «as pessoas tíbias com as quais tu moras.[…] Esta – para o reformador – será a batalha maior de todas». Como garantir a esperada vitória? Antes de tudo, mudando «lugar ou pessoa», escreve S. Antônio Maria. Depois, buscando uma certa garantia, por parte de «alguns poderosos e nobres». Por fim, escondendo «aos tíbios» as próprias intenções sem, porém, mudá-las.

Como se vê, Antônio Maria Zaccaria é um realista: sabe usar armas à disposição dos homens, para o sucesso de um empreendimento que provem de Deus. O reformador, porém, não deve iludir-se: poucos serão aqueles que poderão ajudar na reforma, já que são «pouquíssimos os que querem, verdadeiramente, abraçar a cruz de Cristo e os desprezos».

Se, no entanto, não se encontram pessoas aptas para a reforma na «primeira sociedade», pois «facilmente conservam um pouco do fermento da primeira farinha da tibieza», o reformador deverá procurar outras pessoas. E como chamá-las? Com dons? Com sinais e milagres? Não se exclui isso, mas «o melhor chamado» evidencia-se pela «vida irrepreensível e pela sólida.doutrina da pessoa que chama».

É tão decisivo o dever da reforma, tão delicada a sua atuação, que é necessário começar bem: de outro modo, «entrará a tibieza», com a perda de fervor que a acompanha.

Com tal programa, Antônio Maria Zaccaria deixou aos seus discípulos motivos importantíssimos de reformulação de pensamento, plenamente válidos, ainda hoje. Previdente como era, e ensinado pelos fermentos de crises e reforma que agitavam as Congregações religiosas naquela época, S. Antônio Maria Zaccaria estabeleceu, também para as Congregações fundadas por ele, a necessidade de um constante retorno às origens. Estas encontrar-se-iam num estado de verdadeira mobilização, sob o estímulo dos reformadores, seguindo um ensinamento de S. Gregório Magno: «Os santos provocam sedição, mas através do amor». S. Antônio Maria conclui a apaixonada exposição, nestes termos: «Irmãos, procuramos anotar para vocês estas poucas coisas: as quais, se vocês observarem e cumprirem, esperamos que possam conduzi-los à perfeição, fazendo, sobretudo, que fujam da tibieza».

Os reformadores em ação: religiosos, religiosas e leigos

Depois de ter verificado e aprovado, em Milão, as próprias intenções, depois de ter aperfeiçoado adequados instrumentos apostólicos e de se ter circundado de pessoas aptas para este fim, Antônio Maria pôde acolher os convites para a obra de reforma que sempre mais lhe faziam, a começar pelo pedido do cardeal Nicolau Ridolfi, bispo de Vicença, de 1524 a 1550. Diga-se que esta cidade, também pelas preocupantes infiltrações luteranas, estava animada por um sincero propósito de reforma e que o papa Paulo III, cumprindo as orientações traçadas no Consilium de emendanda Ecclesia, de 1537, escolheu a cidade de Vicença, em um primeiro tempo, como sede do iminente Concílio, que deveria começar em 1o  de maio de 1538, mas que teve o seu começo sete anos depois, em Trento, em 1545.

O cardeal Nicolau Ridolfi, de Roma, onde morava, e depois de um entendimento com a Santa Sé (como o atesta o ato capitular redigido pela comunidade de S. Barnabé, em 24 de dezembro de 1551), através do seu Vigário Geral, fez, em 1536, um explícito pedido aos Paulinos para que tomassem a peito a reforma do mosteiro das Irmãs Conversas de S. Maria Madalena de Vila Pusterla, reforma, aliás, já começada no ano precedente. Significativo o fato de que a desejada «renovação» iniciou-se pelas Congregações religiosas, segundo a intuição do Santo.

Digamos, logo, como foi encaminhada esta Missão. Antônio Maria, as Angélicas Silvana Vismara (+1567), Paula Antônia Negri, e uma leiga, Francisca, chamada a Marechal, por causa do cargo exercido por seu pai, partiram para Vicença, em 2 de julho de 1537. Note-se que Antônio Maria voltou imediatamente para Milão, por conta do processo que se estava desenvolvendo naqueles meses. Encontrá-lo-emos, de novo, em Vicença, de 2 de setembro até fim de outubro daquele mesmo ano. Nesse ínterim, o conjunto dos Paulinos – padres, irmãs e leigos – ficou mais forte, e Pe. Bartolomeu Ferrari tomou a sua direção. Trabalhou junto com eles, uma singular figura de «reformador solitário», pode-se dizer, o braço direito de Antônio Maria, o cremonense frei Bono Lizari, que é citado cinco vezes nas cartas do Santo. Figura carismática (pensava-se que a vitória sobre os franceses, em Pavia, em 1525, tivesse sido conseguida, graças às suas orações), mas um tanto esquiva e precisando de alguns «reparos», foi eficaz nas suas iniciativas – um papel importante teve na difusão das Quarenta Horas Solenes de Adoração – uma vez que «nunca puxou a rede sem pegar peixes bons e grandes».

A sorte conservou-nos uma carta de S. Antônio Maria Zaccaria, de 8 de outubro de 1538, assinada, também, pela «madre» Paula Antônia Negri, e dirigida ao Pe. Bartolomeu Ferrari e às Irmãs Conversas de S. Maria Madalena, com as quais o Santo se tinha hospedado. Esta carta oferece-nos um vivíssimo retrato da obra missionária desenvolvida na reforma dos mosteiros (ao das Irmãs Conversas juntou-se, também, o convento beneditino das Irmãs Silvestrinas), mas sem ignorar o contexto civil mais amplo, com particular atenção à classe dirigente, cujos nomes são lembrados no fim da carta. Fica, portanto, esclarecido, o modo de agir usado pelos Paulinos: chegar aos nervos vitais da sociedade, tanto religiosa quanto civil, o que constitui uma grande diferença com as missões populares como são, ordinariamente, entendidas.

Existe um outro aspecto que nos interessa ressaltar: a presença dos Paulinos suscitou vivas simpatias entre as pessoas mais importantes da cidade, muitas das quais fizeram-se Barnabitas e Angélicas. Quanto aos Barnabitas, podemos recordar Pe. Paulo Melso, Vigário Pretoriano da Sereníssima; Pe. Jerônimo Marta, jurisconsulto e advogado; Pe. João Batista Caimo, diplomata; Pe. Nicolau de Aviano, advogado e procurador; Pe. Marco Antônio Pagani, que se transferiu para a congregação dos Menores Observantes, e se tornou teólogo no Concílio de Trento; Pe. Tito dos Alessi, filho de um farmacêutico, que encontraremos mais adiante.

Quanto às Angélicas, algumas delas, tendo voltado para sua terra natal, depois da expulsão das terras vênetas, em 1551, expulsão esta que golpeou tristemente as famílias zaccarianas, perseveraram na prática espiritual que Antônio Maria lhes ensinara, não obstante que determinações expressas da Sereníssima impedissem qualquer ligação com Milão.

Cinco jovens em jogo

Os dons extraordinários de reformador evidenciam-se em Antônio Maria Zaccaria, não somente em consideração às Congregações por ele fundadas, mas também pela prática pastoral, sobretudo em relação ao mundo dos jovens. Pe. Gabúcio, muito escrupuloso na reconstrução dos fatos ligados a Antônio Maria e aos seus primeiros discípulos, deixou-nos alguns ensaios referentes a encontros que o Santo teve com jovens, e sobre os quais é oportuno determo-nos um pouco.

Impressiona o fato de que, depois de traçar o sinal da cruz na testa de um rapaz de l7 anos, Tito dos Alessi (+1595), que vinha ao seu encontro de um modo totalmente casual, este jovem foi como que atingido por uma «labareda de fogo». A vida de Tito ficou marcada por este fato e, pouco tempo depois, entrou para os Barnabitas. Em seguida, estabeleceu-se em Roma, pela amizade e os bons préstimos de S. Felipe Néri

Em Guastalla, o Santo divisou, numa das margens do rio Pó, um jovem com ótima saúde. Prevendo o destino dele, exortou-o benevolamente a pensar na própria alma e a reconciliar-se com a graça divina, pois a morte podia estar próxima. O jovem ficou impressionado com isso e, imediatamente, confessou-se, morrendo dali a alguns dias, de modo totalmente repentino.

O terceiro é o caso – falam dele as Testemunhos do Pe. Soresina – de um noviço que fez com S. Antônio Maria uma confissão geral, escondendo totalmente um pecado. Antes de absolvê-lo, Antônio Maria advertiu o penitente relapso sobre a oportunidade de manifestar, também, este outro aspecto da sua vida, e revelou-lhe a falta oculta. Diante disso, cheio de admiração e, também, de vergonha, o noviço completou a própria confissão.

O quarto episódio refere-se ao pedido de um jovem – o próprio João Batista Soresina – para que Antônio Maria Zaccaria libertasse a sua casa de um espírito maligno que, com danos e injúrias, dia e noite, atormentava os seus familiares, tornando inútil qualquer remédio. Depois de rezar intensamente, e estando seguro da graça divina, o Santo fez, imediatamente, um exorcismo. «Vai, disse ao jovem, e diga, da minha parte, àquele demônio que, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, afaste-se daquela casa e não a moleste mais». Foi isso que o rapaz fez, com sucesso total.

O quinto caso é contado pelo mesmo João Batista Soresina. «O Pe. Antônio Maria Zaccaria era todo espírito, tinha luz do céu para discernir os espíritos e, assim, prevenia os seus padres, dizendo: “Acolham este e não aquele”, descobrindo os que não queriam progredir, e que vinham aos padres mais para censurar do que para edificar-se». Sabemos por Pe. Inocêncio Chiesa que os dois jovens, citados indiretamente nos Testemunhos, eram os irmãos Fabrício e João Batista, filhos do casal Bernardo e Laura Omodei, destinatários de uma comovida carta-testamento da parte de Antônio Maria, quinze dias antes de sua morte. O primeiro fez-se barnabita, com o nome de Paulo (1584), e sucedeu a S. Alexandre Sauli como Superior Geral, enquanto o segundo mostrou sua ligação com a Ordem dos Barnabitas, mandando reformar a capela de S. Ambrósio, generosamente construída por seu pai, Bernardo, na igreja de S. Barnabé, onde foi sepultado, juntamente com sua esposa Laura.

Estes cinco episódios são emblemáticos no seu gênero e apresentam-se como pontos de referência do desígnio de graça no qual se moveu a ação de Antônio Maria Zaccaria. Antes de tudo, a escolha de vida, através de um gesto audaz: benzer a testa, ao que tudo indica, a um jovem como tantos outros, e infundir nele, segundo a expressão de Gabúcio, «igneam vim», uma força cheia de fogo. O horizonte da existência humana é assinalado pela morte. Nada mais afastado das perspectivas de um jovem e, no entanto, a sabedoria da vida passa pela tomada de consciência do próprio fim. Em terceiro lugar, a necessidade de reconduzir à verdade, com uma sincera e humilde confissão, a história pessoal, aceitando luzes e sombras: sobretudo sombras, particularmente difíceis de serem reconhecidas por um jovem, por natureza, perfeccionista e orgulhoso. E, ainda, a constatação de como a vida humana seja uma luta implacável contra as forças do maligno e a consciência dos riscos que derivam desta luta. De tal consciência faz-se porta-voz um jovem, que domina a própria sensibilidade ao perceber os dramas do coração humano, e pede socorro à força da graça. Enfim, temos um claro exemplo de como o segredo do apostolado, sobretudo entre os jovens, consista no dom do discernimento.

VIII – Antônio Maria morre «com muito prazer»

VIII – Antônio Maria morre «com muito prazer»

Entre os primeiros companheiros de S. Antônio Maria Zaccaria e seu verdadeiro protegido, João Batista Soresina foi recebido entre os Paulinos, com 20 anos de idade, e morreu com mais de 80 anos, em 1601. Ele deixou escrito, nos Testemunhos sobre a vida e a morte do reverendo Pe. Antônio Maria Zaccaria, que «a sua morte foi santa, tal como sua vida». O próprio Pe. João Batista Soresina soube diretamente por S. Antônio Maria, «doente, na cama», que «lhe apareceu o apóstolo São Paulo pedindo-lhe se queria ir com ele para o céu, e o Padre respondeu que sim, com muito prazer e, assim, morreu daquela doença».

Em missão de paz

Eis como as coisas se passaram, mais detalhadamente. A condessa de Guastalla foi atingida, por três anos, por uma grave medida eclesiástica (o interdito, ou seja, a suspensão do culto litúrgico), por causa de uma briga de interesses entre os condes Paulo Torelli, de Montechiarúgolo e Marco Antônio Torelli, de Mântua. A direta intervenção do papa Paulo III concedeu a absolvição, com a condição de que o conde Paulo desse o seu consentimento. Além disso, o conde Carlos Gonzaga, de Novelara, tendo sabido que o feudo de Guastalla estava para ser vendido, ocupou abusivamente o assim chamado «vale dos canais», isto é, um local importante para a distribuição das águas. A condessa Ludovica Torelli, a quem pertencia o feudo, recorreu ao Senado de Milão, que ordenou ao pretor de Cremona, que fizesse uma indagação no local. O pretor citou, no processo, o castelão de Guastalla, Bernardo Zaccaria (primo do Fundador), e a contra-parte, isto é, o usurpador, o conde Carlos Gonzaga. As coisas demoraram muito, pois queriam tirar a maior vantagem possível, tanto na compra, como na venda do feudo. Era necessário que aparecesse uma pessoa inteligente e com autoridade que, no local, resolvesse, habilmente, toda dificuldade. Foi escolhido S. Antônio Maria Zaccaria.

Aceitou de boa vontade, porque sempre gostou de Guastalla: foi aí que desempenhou múltiplos serviços, de capelão a fiduciário da condessa Torelli, e aí tomou forma o projeto das Famílias zaccarianas. Dali escreveu as suas últimas cartas às três Congregações: Barnabitas, Angélicas e Leigos de S. Paulo.

Ao interdito o Santo pôde opor-se, por força do privilégio do altar portátil, que lhe permitia celebrar a Missa e administrar os sacramentos, como quisesse. Além do mais, sabia que era pessoa amiga dos contendentes: esperava, portanto, resolver toda controvérsia. Como era seu costume, Pe. Antônio Maria esmerou-se na assistência espiritual aos habitantes de Guastalla, dividindo-se, depois, o melhor que pôde, entre Montechiarúgolo e Mântua, para apaziguar os dois Torelli, como também indo a Novelara, pela questão do «vale dos canais».

«Levem-me para a casa de minha mãe»

Chegando os primeiros dias quentes do sufocante verão da região do rio Pó, franzino como era, todo este corre-corre e trabalho foram fatais para Antônio Maria Zaccaria. Na carta aos cônjuges Omodei, de 20 de junho de 1539, ele acusa um grande «cansaço de corpo». Está consciente de seu estado; além do mais, era um médico. Pede: «levem-me a Cremona, para a casa de minha mãe». Chega em Cremona a tempo de expirar entre os braços amorosos dos co-irmãos, chegados de Milão: Bartolomeu Ferrari, João Batista Soresina, Bonsenhor Cacciaguerra e, parece, o canônico regular Serafim Aceti de Fermo e, também, a Angélica Paula Antônia Negri que, (no dizer do seu biógrafo), encontrando-se em Vicença e tendo notícia de que S. Antônio Maria estava morrendo, pôs-se em viagem, pedindo ao Senhor de poder encontrar vivo aquele que ela considerava seu filho espiritual. Conforme o mesmo biógrafo, Antônio Maria recobrou os sentidos, e pôs a «divina madre mestra» a par de quanto lhe tinha acontecido.

À semelhança dos antigos testemunhos barnabíticos, também a Angélica Anônima deixou nas suas Memórias um relato dos últimos acontecimentos da vida terrena de Antônio Maria: «Ficou gravemente enfermo e o gloriosíssimo pai e protetor São Paulo apareceu-lhe e avisou-o sobre a morte iminente; esta notícia foi recebida por ele com muita hilaridade e júbilo, e falou disso aos seus filhos espirituais, preparando-se e dispondo-se, por meio dos santos Sacramentos. Na oitava da festa dos gloriosos apóstolos São Pedro e São Paulo, voou para o céu, com tantas lágrimas e dores dos seus amados filhos, que mais não se pode dizer». Este último particular nós encontramos, também, nas Pequenas Crônicas A e C – dois como que rascunhos sobre as origens dos Paulinos – onde é ressaltada «a excessiva dor» causada pela morte de Antônio Maria Zaccaria.

Um dos testemunhos diretos da doença e do trânsito do nosso Santo, foi Bonsenhor Cacciaguerra (+l566). Nascido na cidade de Sena, em conseqüência de uma peregrinação a Santiago de Compostella, abraçou resolutamente, a vida espiritual e tomou o nome de «Peregrino», como S. Inácio de Loyola, colocando-se a serviço dos doentes e indo de cidade em cidade. Ligado a Bartolomeu Ferrari, por via do irmão, Basílio, no outono de 1538 foi-lhe aconselhado pelo diretor espiritual, de dirigir-se a Milão, na casa dos nossos padres, com os quais aprenderia os critérios com que faziam a reforma das Irmãs Conversas, em Vicença, e como prestar assistência nos hospitais. Terminado o tempo da hospedagem em Milão, começou o caminho de volta, dirigindo-se para Cremona. Daqui, navegando pelo rio Pó, atracaria em Ancona e, depois, chegaria em Roma. Tendo, no entanto, recebido a notícia da doença de Antônio Maria Zaccaria, a convite do Pe. Bartolomeu Ferrari, Bonsenhor Cacciaguerra decidiu ficar em Cremona. Escreveu assim, usando a terceira pessoa: «Em Guastalla […], ficou gravemente doente um seu conhecido, o qual [em realidade, foi Pe. Bartolomeu Ferrari, e não S. Antônio Maria] pediu a Bonsenhor Cacciaguerra que fizesse o favor de acompanhá-lo até Cremona, sua cidade natal, e assim fez. E, piorando ainda mais o enfermo, fez a oração da manhã pela salvação daquela alma, oferecendo-se ao Senhor para padecer em si mesmo toda tribulação, e foi ouvido, porque, no dia seguinte, Bonsenhor Cacciaguerra foi surpreendido por uma grande febre, que durou quinze dias, ininterruptamente […] e sofreu muito, não podendo ser assistido pelos da casa, por estarem ocupados em volta do enfermo, já piorado até o extremo, de tal modo que, depois, morreu. E, na própria noite em que passou desta vida, viu que aquela alma estava em lugar de salvação, e teve, duas vezes, certeza disso». Na Autobiografia, Bonsenhor Cacciaguerra acrescenta, em mérito à morte de S. Antônio Maria Zaccaria: «Eu não digo, por hora, o melhor, e tenho pena de não dizer o que, sobre este fato, eu soube de bem».

«Infatigável caridade»

Informações mais detalhadas nos foram dadas por Pe. João Antônio Gabúcio, que teve conhecimento de quanto Antonieta Pescaroli, a mãe de S. Antônio Maria, confidenciou às Angélicas do mosteiro de S. Marta, em Cremona (fundado por Irmã Valéria dos Alieri, parente do Santo)15 . «Pressentindo o fim da sua peregrinação, disse: “Conduzam-me a Cremona e lá, na oitava dos Santos Apóstolos (como, de fato, aconteceu), passarei ao Senhor”. Transferido para Cremona, e agravando-se cada dia mais a doença, Antônio Maria interessou-se, com verdadeira piedade, unicamente naquilo que o ajudaria a levar a termo a própria vida, do melhor modo. Ele mesmo disse ter enfrentado, naquele momento difícil, uma luta pesada e molesta com o inimigo do gênero humano. Acrescentou que, enquanto estava adormecido, foi-lhe revelado por Deus o futuro de toda a Congregação, e apareceu-lhe, em visão, o bem-aventurado apóstolo Paulo, em ato de suplicar a Deus para que não o tirasse deste mundo, para que pudesse ser mais útil à Congregação. Ele, porém, pensava dever morrer, já que os outros apóstolos suplicavam que fosse com eles para o céu. Dirigiu-se, outras vezes, aos presentes, em plena lucidez e com grande ardor de espírito, recomendando que cultivassem, do melhor modo, a disciplina espiritual, guardassem a concórdia e a santa caridade entre os irmãos, conservassem e aumentassem, sempre, e acima de tudo, o amor de Deus. Depois de receber os santos Sacramentos da Igreja, com grande devoção, adormentou-se no Senhor», no sábado, dia 5 de julho de 1539, «às quinze horas», acrescenta a Pequena Crônica A e, portanto, na hora em que Cristo morreu na cruz. Não se esqueça, neste contexto, a profecia feita à sua mãe, no leito de morte: «Não chores; dentro de poucos anos, também tu estarás comigo na glória». Antonieta Pescaroli, de fato, reuniu-se com o filho, depois de menos de cinco anos, em 10 de maio de 1544.

O Necrológio das primeiras Angélicas acertou em cheio quando registrou a morte de S. Antônio Maria Zaccaria, com uma frase lacônica, mas eloqüentíssima: «Foi para o céu, receber o prêmio da sua infatigável caridade».

Notas:

15. Antonieta Pescaroli deu, em herança, às Angélicas, junto com os próprios bens, o caderno original dos Sermões feitos pelo filho, em Cremona.

IX – A herança espiritual deixada por Santo Antônio Maria Zaccaria

IX – A herança espiritual deixada por Santo Antônio Maria Zaccaria

«Contemplata aliis tradere;. transmitir aos outros o que se rezou e meditou». Como bom discípulo de S. Tomás de Aquino, completada a preparação para o sacerdócio sob a orientação dos freis dominicanos, Antônio Maria ouviu, quem sabe, muitas vezes, a repetição desta suprema lei da vida cristã. E podemos até dizer que , nele, o ardor apostólico não foi outra coisa senão contemplação na ação.

«Se tens um amigo querido, gostarás, também, das coisas que ele ama ou pelas quais tem estima. Portanto, tendo Deus tanta estima pelo homem, serias bem cruel e pouco amante de sua Majestade e Bondade, se não tivesses em grandíssima conta este homem, que Lhe custou tão caro». É, no mínimo, estupendo, este «caro», que soou com tons de dramática atualidade aos ouvidos do grupo da Amizade, na cidade de Cremona, onde as crônicas do tempo dizem que estava acontecendo «a extrema-unção da pátria», por motivo das incursões das soldadescas, que saqueavam os habitantes, provocando carestia e morte.

Fazer as pessoas se apaixonarem por Cristo Crucificado

Perguntamo-nos, como Antônio Maria aprendeu que o homem custa tão caro a Deus. A resposta é evidente: contemplando o mistério da Cruz! Por isso, ele recomenda a quem se prepara para começar a obra da reforma: «Com audácia, exalta a Cruz, o mais fortemente que puderes, sobre a tibieza, em favor dos bons costumes». Para entender a incidência apostólica que tem aos olhos dos Paulinos a lembrança de Jesus Crucificado, pode-se examinar a carta enviada ao Pe. Bartolomeu Ferrari e aos seus colaboradores, em Vicença. É Jesus Crucificado quem precede e acompanha as intenções, as palavras e as obras dos missionários. Ele «prometeu-lhes uma medida tal que as suas forças estender-se-ão até ultrapassar os íntimos meandros dos corações». Ele, «de hora em hora», confia à obra dos evangelizadores, quantos são chamados a receber graças tão grandes. Jesus Crucificado – assim se expressa S. Antônio Maria na mesma carta – foi, sempre, próvido de bênçãos com as Irmãs Conversas. Quanto às Silvestrinas, as monjas de observância beneditina, também elas interessadas na obra da reforma, afirma que «Jesus Crucificado faz que elas amem por força de amor, com muita generosidade».

A contemplação de Cristo Crucificado, o Filho que o Pai celeste nos deu «em serviço, em preço, em morte», deveria transformar, não só os seguidores de Antônio Maria, mas, também, quantos eram atingidos por eles na sua ação apostólica, em verdadeiros «filhos da Cruz», como se expressava S. Agostinho16 , perfeitamente assimilados com Cristo. Diz às Angélicas que «São Paulo prega-lhes um Cristo Crucificado, em toda parte: não só o próprio Cristo, mas elas mesmas, crucificadas com Cristo; e procurem meditar bem este pensamento». Expressão que parece realçar, literalmente, o paulino «hoc solum a vobis volo discere; só isto quero saber de vós» (Gal 3,2)

De tal convicção, nasce a primeira das iniciativas pastorais, que leva o nome de S. Antônio Maria Zaccaria: o toque dos sinos, às 15 horas, de toda sexta feira. O antigo cronista, o já citado João Carlos Burigozzo, relata que um grupo de homens e mulheres que «tinham fama de santidade» e levavam vida comum, «obtiveram a licença de poderem tocar, longamente, o sino, nas sextas feiras, na hora em que Cristo morreu. E alguns deles, sobretudo mulheres, encontram-se na Catedral, naquela hora, todos de cabeça baixa e com braços abertos. Calcula-se que, atualmente, sejam cerca de mil pessoas». Note-se que estamos na Quaresma de 1532 e, portanto, tal evento precede a fundação das Congregações zaccarianas, constituindo-se quase como um fato preparatório para elas, mostrando já as claras intenções dos discípulos de Antônio Maria. Costumava recomendar-lhes – relata o Pe. Soresina – que, «no trabalho da conversão das almas, procurassem fazê-las apaixonarem-se por Cristo Crucificado, e que não se preocupassem muito com outra coisa; pois, quando uma pessoa se apaixona por Jesus Crucificado, por si mesmo, depois, detesta e abomina toda vaidade, delícias supérfluas, e qualquer outra coisa não condizente com a boa conduta cristã».

«A principal conversão»: a Eucaristia

Sempre na Quaresma de 1532, o mesmo cronista contou o fato daquele pregador que, na Catedral, «prometeu mostrar um Cristo vivo» no ato em que estava pregado na cruz. E acrescenta que a este encontro, além da «companhia do toque dos sinos nas sexta feiras – os Paulinos – compareceu quase toda Milão». Esperava-se ver Cristo em carne e osso, mas o pregador resolveu o problema, diante de uma multidão que, de outro modo, o teria linchado, dizendo que devíamos ver Cristo vivo na cruz, com «olhos espirituais».

Antônio Maria ouviu, também ele, tal afirmação, e perguntou se não era mesmo possível ver o Cristo vivo, repensando numa experiência em uso, como se disse, no interno do Cenáculo da Eterna Sabedoria. Trata-se da adoração eucarística, com a duração do tempo transcorrido por Cristo no sepulcro, adoração introduzida, justamente, na Igreja do Santo Sepulcro, durante o tríduo pascal pregado pelo Pe. Bellotti, em 1527, e repetida no dia de Pentecostes, na festa da Assunção de Nossa Senhora e no dia de Natal. Antônio Maria teve a genial idéia de transformar as Quarenta Horas em uma prática pública e solene. Através de frei Bono, já em 1534, tinha feito um requerimento ao duque Francisco II Sforza e ao Vigário Geral do cardeal Hipólito II do Leste, para poder expor o Santíssimo Sacramento, com muitos ornamentos e luzes, durante quarenta horas contínuas, de uma igreja a outra. Não houve resposta, provavelmente, por causa do agravamento do clima político.

Três anos depois, Burigozzo confirma que a prática das Quarenta Horas já era uma realidade. O Santíssimo era adorado em um altar da Catedral, onde o capuchinho frei José de Ferno pregava a Quaresma. E, enquanto o frei «convidava o povo para esta obra santa», os Paulinos descobriram um «novo recurso para ajudar a fazer as Quarenta Horas em toda igreja», fornecendo óleo e velas para a iluminação, especifica Burigozzo. «Começaram, no princípio do mês de maio, na Porta Oriental», a atual Porta Veneza, «e, depois, nas Portas Romana e Ticinesa. Atualmente, estamos no princípio de outubro, chegaram a Porta Vercelina; e permanecem quarenta horas em cada igreja». Sabemos que o papa Paulo III, informado da iniciativa pelas autoridades civis e religiosas, concedeu ampla aprovação, considerando esta prática apropriada «para aplacar a ira de Deus para com os cristãos, devida aos seus pecados, e para vencer as tentativas e forças empregadas pelos turcos, no intento de destruir os cristãos».

Tamanha importância dada à Eucaristia, comportando, também, a difusão da comunhão freqüente, fundamenta-se em uma convicção que S. Antônio Maria tinha já manifestado aos Amigos cremonenses, comentando o preceito da santificação das festas. Depois de ter precisado que «santificação quer dizer converter-se», entre os meios que define como extrínsecos, porque ligados a práticas externas, ele coloca as duas mesas, a da Palavra e a da Eucaristia. «Converter-te-ás a Deus, lendo […] a Escritura Sagrada […] e, ainda mais, oferecendo-Lhe […] o Sacrifício dos sacrifícios, a Santíssima Eucaristia». Para, depois, acrescentar: «Não devemos nos espantar se o homem ficou frio na fé e tornou-se como um animal: é porque não freqüenta este Sacramento. A principal conversão que fazes a Deus, consiste neste Alimento. Vai em frente, caríssimo, vai em frente: não existe outra coisa que mais possa ajudar na tua santificação, pois aqui está o Santo dos santos. Lembra-te de que S. Agostinho nos exortava a comungar, ao menos, uma vez por semana». Prática que Antônio Maria promoveu a partir das suas filhas, as irmãs Angélicas, às quais dirigia, durante a missa, «quatro palavras de edificação espiritual», com a intenção de «preparar os seus corações para Deus», de tal modo a «acender neles o fogo do amor» e, «por sua graça, fazer deles a sua morada, o seu templo».

Pela força deste Alimento sagrado, os seguidores de Antônio Maria Zaccaria estavam prontos para seguir a máxima dada por ele aos membros do Oratório da Amizade: «Em tudo, o amor a Deus seja o motivo das tuas ações».

Notas:

16. In psalmum 41,2: PL 36, 465